Irrigação em cana: Veja mais um MITO

Em mais um conteúdo da Série Mitos e Fatos sobre irrigação em cana-de-açúcar, que tem o objetivo de contribuir para o esclarecimento de alguns aspectos importantes, com base na sua experiência com pesquisa, desenvolvimento e gestão em sistema de produção irrigada, Vinicius Bof Bufon, pesquisador da Embrapa Cerrados, fala sobre mais um mito recorrente no setor sucroenergético. CONFIRA:

A cana precisa de 1500 mm de água por ano: MITO

Mitos sobre irrigação na cana-de-açúcar

Não existe tal número mágico. De quanta água você precisa por dia? Vai me dizer que isso depende de algumas condições. Depende de onde estará – um lugar frio ou no deserto. Depende do que estará fazendo – parado dentro de casa ou correndo uma maratona. E depende até da fisiologia de cada um e do tamanho do corpo que precisa sustentar – uma criança de 2 anos ou um atleta de 150kg. Da mesma forma, a afirmação de um valor fixo de demanda hídrica da cana-de-açúcar iguala, equivocadamente, diferentes regiões climáticas, épocas de plantio e colheita, genética da variedade e, inclusive, objetivos de produção.

Apesar de mais técnica e ainda gerar muita confusão, essa é uma das questões mais importantes para análise da viabilidade da produção irrigada de cana-de-açúcar. Por isso, peço a paciência e atenção aos leitores para me acompanharem numa explicação um pouco mais estendida, que dividirei em duas partes.

Na primeira, tratarei da demanda hídrica, que ocorre em função do clima, das épocas de plantio e colheita e de características da cultura. Essa demanda é chamada de evapotranspiração potencial.

Ela é regida, principalmente, pelas condições climáticas. Por isso, regiões com climas distintos possuem evapotranspiração potencial diferente. Mas uma determinada região pode apresentar variações climáticas dentro do mesmo ano, a cada estação e mesmo entre um ano e outro, devido às oscilações do clima em escala global, com a ocorrência de fenômenos como El Niño, La Niña e outros. Com as mudanças climáticas, essas variações dentro do ano e a cada ano também estão cada vez mais intensas e frequentes.

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A evapotranspiração potencial também depende da idade e do porte da cultura. Um canavial pequeno, na fase de germinação ou brotação e perfilhamento, tem uma demanda muito menor que uma cana adulta em pleno desenvolvimento.

Se a cana estiver passando pela fase de máximo desenvolvimento exatamente na época do ano com maior radiação, temperatura e velocidade do vento e de menor umidade do ar, a demanda hídrica chega ao seu máximo. Por isso, as datas de plantio e colheita de cada canavial também afetam a evapotranspiração potencial. Um canavial colhido no início de safra, que brota e passa o inverno com pequena biomassa, tende a ter menor demanda e menor déficit hídrico do que um canavial colhido no final de safra, que brota e cresce com abundância no período chuvoso e chega ao início da estação seca com uma enorme biomassa para ser sustentada, justamente quando não há oferta de chuva.

A evapotranspiração potencial ainda depende da genética de cada variedade de cana-de-açúcar. Mas, comparadas às variações climáticas, essas diferenças são relativamente menores. Podemos associá-la a evapotranspiração potencial ao tamanho e à potência de uma motobomba. Quanto maior a planta, maior também será a quantidade de água que pode ser absorvida pelas raízes e transportada pelos colmos até chegar às folhas, de onde será transpirada para atmosfera, junto com a água que evapora diretamente do solo úmido do canavial.

Nas regiões produtoras de cana-de-açúcar no Brasil, a evapotranspiração potencial em um ciclo de um ano varia entre 800 e 2000 mm, podendo, eventualmente, atingir valores menores e maiores.

Um segundo aspecto crucial da demanda hídrica está associado ao objetivo de produção, ao que esperamos que a cana-de-açúcar nos entregue. Chamamos essa demanda de evapotranspiração real.

A demanda hídrica para mera sobrevivência da cana-de-açúcar é diferente daquela para atingir um nível mínimo ou elevado de produtividade. A produção de colmos é proporcional à quantidade de água que é transpirada pela cana-de-açúcar. Quanto mais água passar por dentro da planta, maior será seu potencial de produzir biomassa.

Uma motobomba enorme (evapotranspiração potencial) não succionará muita água se estiver sobre um reservatório vazio. Isso significa que a evapotranspiração real está relacionada à disponibilidade de água, ou seja, depende da entrada de água de chuva e de irrigação, do tamanho do reservatório e do volume de solo explorado pela cana.

No que diz respeito à chuva, é importante não só o volume, mas também a distribuição. Por exemplo, no Cerrado há uma grande concentração da chuva em poucos meses do ano. Geralmente, a cana-de-açúcar só consegue utilizar metade dessa água e transformá-la no que chamamos de precipitação efetiva. A outra metade escoa para rios e lagos e se infiltra abaixo da zona radicular.

Por causa da má distribuição das chuvas, também importa a capacidade de armazenamento de água do solo. Em uma mesma região e mesmo clima, solos com diferentes capacidades de armazenamento de água afetarão a quantidade que será armazenada e evapotranspirada pela cana.

Quanto maior a capacidade de armazenamento de água do solo, maior a fração da evapotranspiração potencial que será transformada em evapotranspiração real. A fração da demanda potencial que não pode ser atendida pela baixa disponibilidade hídrica, ou seja, que não se converte em evapotranspiração real, é chamada déficit hídrico.

Por isso, não há número mágico. A quantidade de água necessária para atender a demanda da cana depende do solo, épocas de plantio e colheita, do padrão climático da região e das oscilações desse padrão climático a cada ano.

Vou dar um exemplo: num período de 30 anos, na maior parte dos anos, o canavial de sequeiro evapotranspira aproximadamente 650 mm em uma safra de 12 meses. Mas houve anos em que o mesmo canavial evapotranspirou 500 mm e outros em que esse valor chegou a 1400 mm. Essa magnitude de variação é experimentada em regiões produtoras tradicionais de São Paulo, principalmente no Cerrado do estado.

Para cada 100 mm de evapotranspiração real, normalmente, um canavial entrega de 10 a 15 toneladas de colmo, na média de 5 anos, dependendo do padrão de manejo. Por isso, se tivermos num cenário de 650 mm de evapotranspiração real e desejarmos produzir um TCH5 (produtividade média em cinco anos) maior que a faixa de 65-95 toneladas, precisaremos adicionar água via irrigação e aproveitar melhor a evapotranspiração potencial, que devido à restrição de chuva, não permitiu que se convertesse em evapotranspiração real.

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