Mais MITOS e FATOS sobre irrigação em cana-de-açúcar

Dando continuidade a série sobre Mitos e Fatos sobre irrigação em cana-de-açúcar, com objetivo de contribuir para o esclarecimento de alguns aspectos importantes, com base na sua experiência com pesquisa, desenvolvimento e gestão em sistema de produção irrigada, Vinicius Bof Bufon, pesquisador da Embrapa Cerrados, volta e aponta o que é mito e o que é fato em duas afirmações feitas de forma recorrente no setor sucroenergético. CONFIRA:

Variedades desenvolvidas para ambientes de produção mais favoráveis são as mais indicadas para produção irrigada: Nem MITO nem FATO

Os ambientes de produção mais favoráveis possuem melhor fertilidade e melhor capacidade de armazenamento de água, características que colaboram para o bom funcionamento da planta e que podem atenuar os efeitos do déficit hídrico. Ainda assim, não conseguem resolver o déficit de 4 a 7 meses, com 400 a 1200 mm, situação que ocorre na maior parte de nossas regiões produtoras.

Como não houve até hoje nenhum programa de melhoramento de cana-de-açúcar no País que tenha selecionado e lançado variedades para produção irrigada, todas, sem exceção, foram melhoradas justamente para produzir na condição oposta – a de sequeiro. Apesar disso, a capacidade de armazenamento de 50 ou 100 mm a mais nos ambientes mais favoráveis não resolve aquele déficit hídrico severo. Portanto, não é trivial identificar variedades para produção irrigada dentre as que estão hoje disponíveis comercialmente.

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Geralmente, os mecanismos fisiológicos que conferem à variedade boa tolerância à seca são justamente os que limitam sua responsividade à irrigação. Por exemplo, uma cana tolerante à seca se antecipa a uma piora da oferta climática ou ao ressecamento do solo para, rapidamente, fechar estômato, enrolar e/ou senescer folhas, reduzir vigor de crescimento (encarretelamento), direcionar carboidratos que atenderiam ao crescimento de folhas e colmos para as raízes etc.

Se por um lado esse comportamento faz a cana reduzir a biomassa aérea que ela precisa sustentar e logo reduzir sua demanda hídrica, por outro, trava sua transpiração, o que reduz o vigor de crescimento de colmos e o acúmulo de açúcar.

Em um sistema irrigado, garante-se o fornecimento de água e nutrientes na época de seca. Para aproveitar essa vantagem, as variedades adaptadas ao sistema irrigado precisam ser lentas em acionar esses mecanismos de proteção e se manter transpirando vigorosamente, crescendo e multiplicando células, produzindo açúcares e transportando-os para os colmos, independente do que sinaliza o clima ou o solo.

Visto que as nossas variedades foram selecionadas para produção de sequeiro, a diferença genética entre as indicadas para os melhores e os piores ambientes não é suficiente para caracterizar as de melhor ambiente como as mais recomendadas para produção irrigada. Frequentemente identificamos variedades mais apropriadas para produção irrigada dentre as recomendadas para os piores ambientes.

Quase todas características observadas na seleção de variedades de sequeiro também são importantes para seleção de variedade para produção irrigada. Mas há pelo menos três características que deveriam ter maior peso na seleção de variedades específicas para produção irrigada.

A primeira e mais importante é a responsividade à irrigação, que garanta o crescimento rápido e vigoroso das plantas independentemente das sinalizações de clima e solo. A segunda é a tolerância ao acamamento e em terceiro lugar, ligeiramente menos importante, é o porte e o hábito de crescimento eretos dos colmos.

Por conta do crescimento vigoroso e grande peso dos colmos, a cana irrigada sofre antecipadamente com acamamento. Às vezes, um canavial deita e levanta duas, três ou até quatro vezes antes de ser colhido. A cada evento de acamamento, a cana perde área foliar, reduz absorção de radiação, desacelera o crescimento e perde qualidade dos colmos, que, ao tocar o solo, enraízam e apodrecem. Além disso, o canavial acamado fica mais suscetível ao abalo, arranquio e pisoteio da soqueira durante a colheita.

Se, por um lado, a responsividade entregará maior potencial produtivo, as outras características propiciarão melhor qualidade de colheita e maior longevidade à cana irrigada. Como ainda não temos um programa que seleciona variedades para produção irrigada, hoje buscamos selecionar, dentre aquelas melhoradas para sequeiro, as que melhor se adequam à produção irrigada. Às vezes as encontramos entre as variedades de ambiente melhor e outras, dentre as selecionadas para os piores ambientes.

Cana irrigada tem sistema radicular mais limitado e baixa eficiência de uso de nutrientes (Crédito:NaanDanJain)

Cana irrigada tem sistema radicular mais limitado e baixa eficiência de uso de nutrientes: MITO

É frequente a interpretação de que a cana-de-açúcar em sistema irrigado necessariamente terá um sistema radicular mais superficial quando irrigado por aspersão ou pivô. Essa visão vem da ideia de que a disponibilidade muito frequente de água deixa a cana “preguiçosa” e o sistema radicular acaba ficando raso, inclusive favorecendo o tombamento da soqueira.

Também é comum o entendimento de que no canavial irrigado por gotejamento, as raízes das plantas ficam concentradas em um pequeno bulbo molhado pelo gotejador, restringindo a zona de interação com os nutrientes e a microbiota do solo, desperdiçando água e nutrientes localizados fora do bulbo, lá na entrelinha, onde não há raízes para absorvê-los. Esses conceitos até poderiam ser parcialmente corretos em sistemas sem manejo racional da irrigação e em regiões desérticas com precipitação virtualmente nula.

Mas o fato é que os canaviais irrigados nas regiões produtoras do Brasil vivem uma dinâmica muito diferente das produções de deserto que recebem água exclusivamente da irrigação. Em nossas regiões produtoras a oferta de chuva, em volume, seria muito satisfatória, não fosse a distribuição extremamente concentrada em um curto período do ano. Por isso, praticamos aqui uma estratégia de irrigação chamada suplementar, ou complementar, que adiciona oferta hídrica via irrigação apenas no período do ano com baixa disponibilidade de chuva.

Mesmo nos sistemas que chamamos de irrigação plena, na verdade, muito raramente suprimos mais que 80% da demanda máxima da cultura. Além do mais, um sistema de produção irrigada eficiente ainda utiliza de estratégias que chamamos déficit controlado. Para isso, projetamos o sistema e conduzimos as irrigações de forma meticulosamente controlada para permitir um nível de estresse moderado, forçando o desenvolvimento radicular mais acentuado, que se expandindo por uma área maior, permitindo maiores ganhos da interação das raízes com a área de solo disponível.

Na verdade, um sistema de produção irrigada de cana bem manejado possui potencial de eficiência de uso de nutrientes superior à produção de sequeiro. Isso ocorre tanto pela disponibilidade de umidade favorável à absorção dos nutrientes pelas raízes durante todo o ano, pela maior velocidade de mineralização dos nutrientes da palhada em condições de solo úmido, e ainda pela possibilidade de fracionamento das adubações de forma a reduzir as perdas por lixiviação, mais comuns quando o adubo é aplicado todo concentrado uma única vez por ano.

*Vinicius Bof Bufon é pesquisador da Embrapa Cerrados

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