João Guilherme Ometto*
Estudo publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), abordando as “Implicações globais do conflito de 2026 no Oriente Médio para o setor agroalimentar”, enfatiza a relevância de países, como o nosso, capazes de produzir e exportar alimentos em grande escala. Devido a dificuldades logísticas, como o bloqueio do Estreito de Ormuz, e da majoração do petróleo e do gás, dos quais depende muito a produção de fertilizantes, o impacto foi instantâneo nos custos agrícolas.
Há, ainda, o fato de que nações envolvidas no conflito, assim como Rússia e Ucrânia, também em guerra, são produtoras importantes de adubos. Nesse cenário, a FAO estima que os preços dos fertilizantes podem permanecer entre 15% e 20% mais altos neste primeiro semestre, encarecendo também os alimentos.
É nesse contexto que o Brasil, segundo o relatório, ganha relevância, ao apresentar duas características raras: escala de produção e capacidade exportadora. De fato, somos um dos maiores fornecedores mundiais de commodities como soja, milho e açúcar e numerosos alimentos. Assim, quaisquer problemas nas nossas lavouras e/ou na capacidade de vender ao exterior têm impacto direto nos preços internacionais de produtos agrícolas.
O estudo chama atenção para esse ponto, ao analisar a vulnerabilidade do Brasil aos choques de fertilizantes. Importamos 85% do volume que consumimos e, de acordo com a FAO, um quinto é proveniente da região do Golfo Pérsico. Porém, o aspecto mais grave está na dimensão sistêmica: se nossos agricultores reduzirem o uso de adubos e, em consequência, diminuírem a produção, haverá impacto imediato no mercado global.
Há, também, outro fator estratégico: enquanto muitos países do Golfo Pérsico dependem de importações para mais de 70% de seu consumo, o Brasil figura entre os exportadores capazes de atender a essa demanda. Em momentos de crise logística ou de redistribuição dos fluxos comerciais, essa posição é ainda mais relevante.
O estudo da FAO confirma que o nosso agro é um componente estrutural para o mundo. Cabe perguntar se nós, brasileiros, entendemos essa relevância em sua dimensão mais profunda. Fico com certo ceticismo sobre isso ao observar alguns problemas. O primeiro refere-se ao fato de, num país com uma das maiores reservas mundiais de terras raras, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) ter como meta produzir internamente apenas 50% de nossa demanda só em 2050. É premente acelerar esse processo.
Outro dado que me preocupa é que o desembolso de recursos do Plano Safra 2025/26 até janeiro último teve recuo de 12,5% em relação ao anterior, segundo o Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro do Banco Central. Juros elevados e agentes financeiros mais seletivos na concessão de financiamento estão entre as causas de que apenas pouco mais da metade dos R$ 405,9 bilhões disponíveis tenham chegado às lavouras. Enquanto isso, a inadimplência no setor rural segue em torno do índice recorde de 8% e os produtores continuam enfrentando pesadas perdas devido à deficiência dos transportes e da falta de armazéns.
Penso que o Brasil precisa solucionar todos esses gargalos. Podemos e devemos oferecer segurança alimentar com preços menores, em especial às nações com baixos indicadores econômicos e sociais. Por isso, é crucial encontrar alternativas para a importação de fertilizantes.
Também necessitamos buscar soluções internas, como o micro-organismo rizóbio, a bactéria do bem, muito eficiente na cultura da soja para a fixação biológica de nitrogênio, que permite substituir totalmente a adubação nitrogenada química. Nas lavouras da cana-de-açúcar, usamos a torta de filtro, rica em fósforo, potássio e nitrogênio, e a vinhaça, abundante em potássio. Há, ainda, a cama de frango, adubo orgânico de alto valor, composto pelos dejetos das aves, e cresce o uso de vários bioinsumos que tornam as raízes das plantas mais resistentes a pragas e outros que contribuem para fixação de nitrogênio e aumentam a eficiência do fósforo.
No âmbito das políticas públicas, é fundamental agilizar a votação no Congresso do Projeto de Lei 699/2023, que institui o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), incentivando essa indústria. A propósito, cabe observar que o adubo importado é isento de impostos, mas o nacional é taxado.
Também precisamos avançar no uso sustentável de áreas dos povos originários, inclusive para melhorar suas condições socioeconômicas. Um exemplo: o Brasil importa potássio de terras dos indígenas do Canadá, que recebem royalties e têm grande interesse em preservar o meio ambiente. Aqui, onde é proibida a extração nas reservas, os nossos passam fome e sofrem com doenças. Precisamos de leis sérias para conciliar produção e proteção ecológica.
Entender de fato a relevância do agro para nossa economia e o mundo, como atesta a FAO, significa, na prática, priorizar a solução dos gargalos que vêm desafiando a resiliência dos brasileiros do campo. Respostas concretas são urgentes.
*João Guilherme Sabino Ometto é engenheiro (Escola de Engenharia de São Carlos – EESC/USP), empresário e membro da Academia Nacional de Agricultura (ANA).

