Os impactos do coronavírus no setor sucroenergético

A pandemia do Covid-19 assola o mundo todo, sendo difícil enumerar as cadeias produtivas que não serão afetadas por conta deste momento, comparado a tempos de guerra por diversos especialistas e autoridades. O setor sucroenergético não ficará de fora e 2020, que parecia ser mais um ano da retomada gradual do meio, terá de lutar para não terminar a temporada em apuros.

Segundo a análise de Haroldo Torres, economista e pesquisador do Pecege (Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas) a pandemia do coronavírus (COVID-19) e a guerra de preços entre Rússia e Arábia Saudita no mercado de Petróleo viraram de ponta-cabeça o cenário otimista apontado para a safra 2020/2021 do setor sucroenergético brasileiro.

“A reação dos mercados tem sido intensa. Tudo isso tem levado a uma piora nas projeções para o crescimento e de recuperação do setor sucroenergético, em especial ante
ao etanol. No caso do COVID-19, dois efeitos globais já estão em curso. O primeiro é a interrupção do fornecimento de produtos para algumas cadeias produtivas (especialmente automotivo e eletrônicos). Além disso, tem o recuo da demanda (o que pode vir a impactar o açúcar).”

Resumo dos impactos do coronavírus no setor sucroenergético

Projetos de etanol de milho permanecerão em stand-by pela conjunção de dois fatores, no 1º trimestre de 2020, que inviabilizam a sua produção. O primeiro é a redução do preço do petróleo, levando a perda de competitividade do etanol. Já o segundo é o aumento do preço da matéria-prima (milho).

O mercado de etanol será atingido duplamente, tanto na redução na demanda por combustíveis do ciclo Otto, em função do menor crescimento da economia brasileira quanto na perda de competitividade do etanol hidratado em relação à gasolina C, o que pode vir a implicar em destruição de margens com a produção e comercialização do etanol por algumas usinas.

A safra 2020/2021 será mais açucareira ante 2019/2020. Isso, em um momento que haverá uma contração no consumo desta commodity, em consequência da desaceleração econômica global trazida pelo coronavírus. Ademais, há um risco potencial ligado aos embarques e escoamento do açúcar, caso portos e terminais sejam fechados como medidas para contenção do vírus.

Haverá uma redução do preço do ATR e, por conseguinte, uma queda na remuneração do fornecedor de cana-de-açúcar. Tanto destilarias autônomas (e usinas com baixa capacidade de produção de açúcar) quanto fornecedores de cana terão uma geração de caixa menor, o que pode vir a comprometer os investimentos no ativo biológico, sob pena de deterioração dos canaviais e redução dos ganhos nas safras seguintes.

Usinas que não conseguiram travar antecipadamente o preço do açúcar para a safra 2020/2021, bem como aquelas que não possuem cogeração de energia, enfrentarão dificuldades para honrar compromissos financeiros e manter os níveis de investimento no campo e na indústria.

Com o maior direcionamento do ATR para a produção do açúcar, as agroindústrias precisarão de uma maior volume de recursos para capital de giro. Adicionalmente, com a queda no preço do petróleo, reduz-se a margem de lucro com a produção de etanol, o que vai comprometer a geração de caixa das usinas sucroenergéticas.

Petróleo e taxa de câmbio: as variáveis-chave

O preço do Petróleo Brent (US$/barril) apresentou uma queda de 59% desde o início de 2020 em função de dois vetores, analisa Torres. O primeiro é a redução na demanda acentuada pelos bloqueios exigidos para conter a pandemia do coronavírus.

Já o segundo é o da guerra de preços ocasionada pelo impasse entre a Arábia Saudita e a Rússia, que não chegaram a nenhum acordo sobre cortes na produção na reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+).

“A Petrobras tem reduzido sistematicamente os seus preços ao longo de 2020. Desde o início do ano, houve uma redução acumulado no preço repassado as refinarias de 29,1% para o óleo diesel, de 7,9% para o GLP e de 30,1% para gasolina (8 alterações de preços deste início do ano)”, afirma.

Segundo o economista, nem toda a queda do preço do petróleo foi repassada pela Petrobrás. Hoje, há um prêmio de quase 30% da gasolina no mercado doméstico em relação à paridade de importação – indicando que ainda há espaço para novos cortes no preço da gasolina nas refinarias.

“É inevitável que a redução do preço do petróleo tenha efeito negativo sobre os preços domésticos do etanol: os preços mais baixos da gasolina levarão a um aumento de seu consumo em detrimento do etanol. Aliás, o etanol hidratado vem perdendo competitividade em relação à gasolina nas bombas nas últimas semanas”, afirma.

De acordo com ele, estima-se uma redução da produção de etanol para 25 bilhões de litros (-24% em relação aos níveis da safra 2019/2020, ocasião em que a produção total foi de cerca 33 bilhões de litros). “Essa redução será mais drástica na produção de etanol hidratado, enquanto que o etanol anidro acompanhará o volume de vendas da
gasolina”, ressalta.

A visão do mercado é de um impacto relevante e severo do surto de coronavírus na economia brasileira, resultado numa previsão de queda de 0,11% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020.

“Historicamente, no mercado doméstico, o consumo de combustíveis para o ciclo Otto tende a acompanhar o crescimento econômico. O arrefecimento da economia brasileira esperado para 2020 implicará numa uma redução na demanda do Ciclo Otto, cuja estimativa é de uma queda de 3,7%”, explica.

Segundo ele, diferentemente de 2019, ocasião em que a participação do etanol nas vendas de combustíveis do ciclo Otto foi recorde, alcançando 45,5% na média
nacional, espera-se que o etanol caia para 37%.  “A queda nos preços do petróleo apoiará uma maior produção de açúcar no Brasil para a nova safra que se inicia em abril de 2020”, adiciona.

Simulação do impacto no preço do etanol hidratado

Em 19/03/2020, o preço da Gasolina na refinaria em Paulínia/SP era cotado a R$ 1.380,20/m3. No entanto, especialistas dizem que a Petrobrás ainda tem espaço para uma redução de R$ 0,30/l, a fim de atender à paridade de importação.

Aplicando essa redução sobre o preço vigente na refinaria, calculou-se o preço na bomba da gasolina partindo de um preço na refinaria de R$ 1,08/l (R$ 1,38 – R$ 0,30).

“A partir deste preço na refinaria, o preço teórico da gasolina na bomba será de R$ 3,66/l (cálculo no box lateral), assumindo uma paridade de 70%, o preço do etanol hidratado na bomba será de R$ 2,56/litro, o que refletirá num preço PVU, isto é, num preço líquido recebido pelas usinas de R$ 1,52/l”, conta o Torres.

Assumindo que a gasolina na refinaria será reduzida para R$ 1,08/litro, ele explica que o preço do etanol na usina deve atingir R$ 1,52/litro, refletindo uma queda de quase 13% em relação a 2019.

“O setor sucroenergético retornará aos níveis de preço do etanol praticados em 2017. O coronavírus e o conflito entre a Rússia e a Arábia Saudita implicarão uma perda de
receita de R$ 0,2252/litro de hidratado comparativamente a 2019”, salienta.

E o Renovabio neste cenário?

Os preços mais baixos do petróleo impactam substancialmente a capacidade das usinas sucroenergéticas de gerar valor. Na sua essência, o RenovaBio proveria o impulso de longo prazo necessário para o etanol e a demanda de energia renovável, caso os preços do petróleo permaneçam em patamares reduzidos.

Neste cenário, o CBIO deveria funcionar como o gradiente indutor de equilíbrio competitivo entre os combustíveis fósseis e renováveis. Para o economista e pesquisador do Pecege, o valor do CBIO seria o necessário para igualar o custo de produção do biocombustível, sendo o seu valor determinado, dentre outras variáveis, pelo preço do petróleo, pois ele altera a dinâmica de oferta e competitividade no mercado de combustíveis.

O valor do CBIO poderá cair em momentos de etanol mais competitivo (preços elevados do petróleo).  Por outro lado, Torres explica, os preços do CBIO deverão apresentar os maiores valores em momentos de preços do petróleo baixo, de forma a garantir a competitividade dos biocombustíveis e estimular a sua produção, mesmo em cenários de preços deprimidos do combustível fóssil, tal como vem se observando no 1º trimestre de 2020.

“No entanto, o RenovaBio deve entrar em vigor, efetivamente, a partir de 2021, o que forçará as usinas sucroenergéticas a novos desafios na safra 2020/2021”, acrescenta.

Açúcar

Os preços do açúcar no mercado internacional começaram a se recuperar em 2019 em função de dois aspectos:

O Brasil direcionou a maior parte do ATR para a produção de
etanol em detrimento do açúcar;

A Índia e Tailândia, outros grandes produtores/exportadores, apresentaram uma redução na produção, em função de adversidades climáticas.

Esses dois vetores supramencionados apontavam para um déficit mais acentuado no mercado global de açúcar, o que vinha pressionando positivamente a cotação da commodity até a eclosão da COVID-19.

“O açúcar desfrutou de uma recuperação de preços até meados de fevereiro, com o déficit global dando suporte às cotações” relembra Torres.

Somando-se a recuperação do preço internacional da commodity com a desvalorização cambial, algumas usinas aproveitaram essa janela para fixar os preços do açúcar para a safra 2020/2021 e, em alguns casos, até mesmo para a safra 2021/2022.

“A conjunção destes fatores proporcionou, por exemplo, no final de Fevereiro/2020, um preço FOB do açúcar acima R$ 1.500/tonelada. Trata-se de um valor que assegura boas margens econômicas para o adoçante frente às safras anteriores.”

Não obstante, com a disseminação do COVID-19, o preço do açúcar sofreu uma forte baixa em NY em março/2020. Há um correlação significativa e negativa (-0,67) entre os preços do açúcar e o avanço de casos da COVID-1.

A queda recente dos preços do açúcar são derivadas de: impactos do Coronavírus nos fluxos comerciais; expectativa de redução do consumo de açúcar, dada as restrições de movimentação das pessoas – quarentena implicará em redução da alimentação fora do domicílio; baixos níveis de preço do petróleo.

“O Brasil produzirá mais açúcar justamente num momento em que se estima que menos açúcar será consumido no mundo em consequência da desaceleração econômica global trazida pelo Coronavírus”, afirma o economista e pesquisador do Pecege.

ATR

A projeção para o preço do ATR, realizada em Janeiro/2020, apontava para um valor de R$ 0,7196/Kg de ATR, refletindo boas perspectivas para o setor sucroenergético brasileiro, dado sobremaneira pelos seguintes vetores:

O Preço do Petróleo cotado ao redor de US$ 50,00/barril, assegurando competitividade para o etanol hidratado. Para Torres, a expectativa de crescimento da economia brasileira de 1,77%, refletindo-se num aumento do consumo do Ciclo Otto para 2020.

Enquanto isso, a Recuperação do preço do açúcar no mercado internacional atrelado à desvalorização do real ante do dólar garantia uma boa remuneração ao adoçante. No entanto, o coronavírus e o conflito no mercado de petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita modificaram substancialmente esse cenário.

“A nova projeção para o preço do ATR, realizada em Março/2020, aponta para um valor de R$ 0,6012/Kg de ATR. Em menos de dois meses, as expectativas (em termos de projeções) para o preço do ATR derretessem mais de 16%; Sob este novo cenário, o fornecedor de cana-de-açúcar terá uma remuneração menor na safra 2020/2021 comparativamente à anterior”, finaliza o economista.