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Opinião

Tensões diplomáticas entre Brasil e China: impacto nas exportações do agronegócio brasileiro

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Veja quais são as estratégias para contornar cenários desfavoráveis

*Arthur Gabriel Trizolio Pascon

O agronegócio é considerado por muitos como um dos setores mais resistentes a crises e contratempos, já que os produtos fornecidos são indispensáveis à existência humana. No entanto, apesar de sua importância e necessidade mundial, o agronegócio não está imune a crises, principalmente em relação a eventos internacionais e diplomáticos.

Apesar de não ser uma das causas mais mencionadas e recorrentes quanto ao surgimento das crises no setor agropecuarista, as tensões diplomáticas podem muito bem resultar em efeitos consideráveis para todo o mercado brasileiro e internacional.

Um exemplo nítido destes efeitos foi o embargo que a China estabeleceu sobre a carne bovina brasileira no início de setembro de 2021, após dois casos atípicos de “vaca louca” terem sido notificados em Minas Gerais e Mato Grosso. Mesmo após o governo brasileiro ter comprovado a regularização do problema e a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) ter informado que as ocorrências não apresentavam risco para a cadeia produtiva nacional, a China decidiu manter o embargo por 3 (três) meses, sendo retirado apenas em 15 de dezembro de 2021.

Segundo analistas políticos, a manutenção do embargo pelo governo chinês foi, dentre outros motivos, uma resposta aos constantes atritos e desentendimentos diplomáticos entre os dois países.

Dessa forma, faz-se fundamental que as empresas e profissionais do agronegócio considerem cada vez mais a situação diplomática como fator relevante para seus negócios, a fim de que tratem essas questões da melhor maneira possível, diminuindo os riscos e encontrando alternativas e soluções viáveis para lidar com tais entraves.

A grande importância do monitoramento e da análise das relações diplomáticas entre Brasil e China decorre dos estreitos vínculos comerciais e econômicos entre os dois países e que vem se tornando cada vez mais forte no decorrer dos anos.

A dinâmica da relação econômica e comercial sino-brasileira começou a se aprofundar a partir da década de 1990, marcada pelo avanço da globalização da economia e da estruturação das cadeias globais de valor. Desde 2009 a China é a maior parceira comercial do Brasil, e em 2019 o fluxo comercial entre os países alcançou a monta de US$ 98 bilhões, de acordo do Ministério das Relações Exteriores. República Popular da China

Ainda no mesmo ano, a China ultrapassou a União Europeia e os Estados Unidos e tornou-se o principal importador mundial de produtos agrícolas, representando 10,7% de todas as importações mundiais, de acordo com dados do Mara, Iaed (Institute of Agricultural Economics and Development) e USDA compilados no relatório China Agriculture Sector 2020/2024.

Dados da Embaixada do Brasil em Pequim, com base em informações da alfândega chinesa (GACC) de 2020, mostram que dentre os países exportadores, o Brasil assume papel importante nesse mercado, representando 18% do total das importações chinesas dos produtos do agronegócio, com destaque para o aumento de quase 50% nas importações de proteína animal

Atualmente, as importações chinesas são utilizadas como fonte de complementação da produção doméstica, além de servirem à ampliação da oferta de alimentos que atendam à diversificação das dietas da classe média chinesa em ascensão.

Vale ressaltar que o governo chinês, em setembro de 2020, estipulou metas de autossuficiência na produção de proteína animal, com o objetivo de abastecer 95% do mercado interno para carne suína e 85% para carne bovina e ovina (Documento n.º 31 sobre o Desenvolvimento da Indústria Pecuária de Qualidade do Conselho de Estado da China). A inserção brasileira no mercado chinês é preponderante em certos produtos e o mercado chinês é mais dependente de uma única commodity, no caso, a soja.

Sendo assim, apesar dos valores representativos que o Brasil possui nas importações chinesas de commodities, a menor participação de certos produtos no consumo doméstico chinês deixa tais produtos em maior fragilidade quanto a eventuais restrições de natureza sanitária, política e diplomática. Ou seja, eventuais conflitos políticos e diplomáticos repercutirão com maior intensidade no fluxo comercial de commodities como carnes, açúcar, algodão, suco de laranja, entre outros, com maior intensidade no Brasil do que na China.

Diante do cenário de incertezas internacionais e conflitos diplomáticos, seria essencial que as empresas do agronegócio brasileiro incorporassem em sua estratégia departamentos ou comitês especializados em geopolítica, ou, ainda, investissem em consultorias que analisassem oportunidades e riscos geopolíticos globais, permitindo uma visão mais especializada e detalhada dos possíveis obstáculos e soluções a serem tomadas conforme cada situação, o que resultaria na maior competitividade da empresa e na melhor tomada de decisões estratégicas de longo prazo para shareholders e stakeholders.

A busca por alternativas que auxiliem no enfrentamento de dificuldades causadas por questões diplomáticas não se restringe somente à consultoria geopolítica. A seguir, serão explanadas outras estratégias que podem ser adotadas pelo agronegócio brasileiro, de forma que sua adoção contribua para amenizar as consequências desses conflitos e garanta maior independência das decisões estatais, estabelecendo um canal mais propício para manter e incrementar o comércio bilateral.

A primeira estratégia a ser definida é expandir a inserção do agronegócio no mercado asiático e promover sua imagem perante a China. Sabe-se que a promoção comercial e da imagem do Brasil nesse mercado apresenta desafios; para a grande maioria do público chinês o Brasil ainda é um país pouco conhecido, e ao surgir na mídia com problemas relacionados a atritos diplomáticos com a China, ou, ainda, a problemas ambientais e fitossanitários, a percepção dos chineses tenderá a ser negativa, afetando a imagem do Brasil como fornecedor de alimentos.

A maior exposição do capital chinês ao setor agrícola e de alimentos do Brasil pode ser feita por meio da formação de parcerias, joint ventures, fusões, aquisições e projetos greenfield, as quais tendem a criar maiores oportunidades em termos de abertura de mercado, diversificação e agregação de valor. A percepção dos produtos com maior potencial de demanda na China e a familiaridade com o ambiente de negócios chinês seriam conhecimentos muito úteis para contornar as dificuldades estabelecidas pelos atritos diplomáticos.

O comércio eletrônico transfronteiriço (cross-border e-commerce ou CBEC) é outra estratégia evidente para as exportações do setor de alimentos e bebidas do Brasil, já que tal modelo pressupõe a venda direta da empresa estrangeira ao consumidor chinês sem a exigência de presença física da empresa ou representação legal na China, contando inclusive com forte incentivo governamental. Países como Alemanha, Inglaterra e Rússia já aderiram a esse modelo comercial. Na América Latina, com a ajuda de seus governos, empresas de países como Chile e Peru conseguiram estabelecer lojas coletivas nas mais famosas plataformas de e-commerce chinesas, como o Tmall (do grupo Alibaba), JD.com e Pinduoduo.

Outro fator que pode gerar grandes diferenças para a melhor relação entre o agronegócio brasileiro e a China é a questão ambiental. Apesar de não possuir os mesmos padrões rígidos e exigências ambientais que o mercado europeu, a tendência é que o tema assuma cada vez mais relevância e peso para o mercado chinês, com consumidores mais bem-informados e exigentes quanto à produção das commodities e seus impactos ambientais, já que o tema da sustentabilidade exerce crescente relevância nas decisões do país asiático perante a comunidade internacional, além do desejo do governo chinês em tomar as rédeas da liderança global no combate às mudanças climáticas.

Ainda nessa questão, vale mencionar que o comércio e os investimentos externos chineses estarão cada vez mais atrelados a regras mais rígidas de governança ambiental, social e corporativa (sigla ESG, em inglês). Essa maior relevância da governança ambiental e social justifica-se pelo objetivo dos investidores chineses de mitigarem riscos nos investimentos, à exemplo do Novo Banco de Desenvolvimento (ou Banco dos BRICS), sediado em Xangai, cujo foco está voltado para o financiamento de infraestruturas sustentáveis. Sendo assim, empresas que tenham ESG mais desenvolvido conseguirão obter maior competitividade e atenção do mercado.

Nesse sentido, percebe-se que as circunstâncias são positivas para a intensificação do diálogo sino-brasileiro em agricultura sustentável, pois, as discussões na China estão tomando forma nos mais diversos âmbitos – opinião pública, governo e consumidores.

Ante o cenário internacional e as constantes transformações pela qual a economia globalizada está sujeita, as tensões diplomáticas somam-se como mais um elemento de influência nas relações comerciais, como o já explanado caso do embargo chinês à carne brasileira. O agronegócio brasileiro não pode, de forma alguma, estar alheio a tais fatores; a geopolítica global deve ser devidamente estudada e analisada pelas empresas do setor, a fim de que esse setor chave para a economia do país não perca a relevância e competitividade no cenário mundial e perante mercado relevantes e promissores.

Portanto, ao enfrentar situações de atritos diplomáticos entre Brasil e China, o agronegócio pode, e deve, adotar uma série de atitudes que propiciarão, não apenas o melhor preparo das empresas sobre cenários desafiadores, mas, também, lhes darão melhores estruturas e condições para potencializar e sedimentar sua participação no mercado chinês. Tais medidas, debatidas e explanadas em todo este artigo e aqui elencadas de maneira sucinta, são:

  1. Investimento em serviços de consultoria geopolítica especializada em agronegócio como medida de prevenção de riscos e maximização de lucros;
  2. Incentivo à formação de parcerias, joint ventures, fusões, aquisições e projetos greenfield com compradores e investidores chineses para a promoção comercial do Brasil e a consequente abertura de mercado;
  3. Buscar a informação e capacitação dos exportadores do agronegócio brasileiro, a fim de que utilizem o comércio eletrônico transfronteiriço (CBEC), operando em uma ou mais plataformas de comércio chinesas através de lojas coletivas, multissetoriais e multimarcas;
  4. Fomentar e aprimorar a sustentabilidade do agronegócio, enquadrando-se nas exigências do comércio internacional e conquistando confiança e familiaridade do consumidor chinês;
  5. Criação e desenvolvimento das práticas de governança ambiental, social e corporativa (ESG) nas empresas, atendo-se aos comportamentos dos investidores chineses.

 

*Arthur Gabriel Trizolio Pascon é advogado trainee do corpo jurídico do escritório Pereira Advogados em Ribeirão Preto.

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