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Diante do avanço dos casos de Covid-19 no Brasil, da lentidão na vacinação e da necessidade de evitar aglomerações, 11 das 17 feiras agropecuárias marcadas para o primeiro semestre deste ano já foram canceladas pelos organizadores. Agrishow, em Ribeirão Preto (SP); Expozebu, em Uberaba (MG) e Rondônia Rural Show, em Ji-Paraná (RO), são as que ainda mantêm a expectativa de realizar os eventos de forma presencial.

As duas feiras mineiras voltadas para produtores de café, Femagri, em Guaxupé, e Feira do Cerrado, em Monte Carmelo, iniciaram suas atividades nesta segunda (1/2), mas apenas no formato digital. Estava prevista a realização de visitas agendadas nas duas feiras no período de 8 a 12 deste mês, mas isso também foi cancelado.

No primeiro dia, segundo as assessorias, as feiras tiveram mais de 800 acessos. A programação de ambas vai até 26 de fevereiro. Outra feira que optou pelo formato digital pela primeira vez é a Safratec, realizada pela Cocamar Cooperativa Agroindustrial, em Maringá (PR), tradicionalmente no final de janeiro. O evento, em sua 31ª edição, começou também nesta segunda e vai até o dia 12.

Os cancelamentos em série começaram há duas semanas com a Expodireto, que abriria o calendário das grandes feiras no início de março, na cidade gaúcha de Não-Me-Toque. A decisão foi justificada pela direção da Cotrijal (Cooperativa Agropecuária e Industrial do Rio Grande do Sul) como uma ação necessária para preservar a saúde de expositores, colaboradores e visitantes devido ao estágio atual da pandemia.

Foi o mesmo argumento utilizado para justificar outros cancelamentos. A Show Safra, em Mato Grosso, ainda exortou a força do agronegócio para superar os desafios e resumiu o desejo dos organizadores desses eventos: “Que a força do campo nos permita programar e realizar um grandioso evento em 2022.”

Até o fim de março

No caso da Agrishow, considerada uma das maiores feiras de tecnologia agrícola do mundo, a direção decidiu esperar até o fim de março para decidir sobre a realização do evento, no final de junho. Realizada tradicionalmente no final de abril, a feira havia sido adiada com a esperança de ter boa parte da população vacinada.

Francisco Maturro, presidente da Agrishow, disse que a mudança de data foi também para ficar mais próxima do anúncio dos novos recursos do Plano Safra pelo governo federal. Segundo ele, o plano é fazer a feira presencial, com palestras e alguns eventos digitais. “Não dá para fazer uma feira totalmente digital. É como beber vinho com os amigos à distância. Não tem graça nenhuma.”

Dois colegas de Maturro discordam. Rivaldo Machado e Fernando Degobbi, presidentes da Expozebu e da Coopercitrus Expo, respectivamente, afirmam que, diante da impossibilidade de fazer feiras com público no ano passado, realizaram eventos digitais com muito sucesso e podem repetir o formato neste ano.

Cancelada no ano passado pela primeira vez em 85 anos, a Expozebu criou uma plataforma virtual de 360 graus e contratou cinco horas de um canal a cabo para seu evento, que foi acompanhado em 90 países, com 250 mil visualizações, gerando um aumento de quase 60% no preço de cada animal nos leilões.

“A Expozebu está confirmada para 1 a 9 de maio. Só não garanto que será presencial porque faltam apenas três meses e estamos no início da vacinação, mas, se não for possível a entrada de público, faremos semipresencial e digital”, diz Machado.

Presidente também da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), responsável pela feira, Machado explica que a presença dos expositores e dos tratadores de animais será controlada e com todos os protocolos sanitários para evitar contaminação. “Esperamos um aumento de 50% nos negócios em relação à feira de 2019 porque a pecuária está em recuperação, dando retorno como nunca para o produtor.”

O evento digital da Coopercitrus em 2020 alcançou 30 países e 100 mil acessos, segundo Degobbi. “Construímos em três meses um evento de vanguarda para não deixar o produtor desassistido. Investimos mais de R$ 2 milhões ante os R$ 880 mil da feira normal, mas o evento foi muito bem-sucedido, com R$ 1,1 bilhão em negócios.”

A feira deste ano está marcada para o final de julho. Degobbi afirma que, se a situação da pandemia melhorar e for liberada uma maior movimentação de pessoas no segundo semestre, fará o evento de forma presencial. Caso contrário, repetirá o formato digital.

Expositores

Os cancelamentos de feiras se tornaram mais frequentes após gigantes do setor de máquinas agrícolas, como Case IH, New Holland, John Deere, Massey Ferguson e Valtra, declararem em janeiro que não vão participar dos eventos presenciais neste ano para preservar a saúde de funcionários e clientes.

A Jacto informou que vai participar “à medida que for seguro”. Mesmo sem as feiras, as montadoras registraram aumento de vendas em 2020, investindo em eventos digitais próprios, o que deu mais argumentos para a indústria defender a transformação das feiras em bienais.

Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), diz que essa proposta não tem consenso. Segundo ele, 2020 foi um ano atípico devido à alta rentabilidade das culturas, especialmente das commodities, com câmbio a quase R$ 6, o que levou os produtores a investirem mais em máquinas.

O dirigente acredita que o cancelamento das feiras presenciais neste ano pode ter impacto nas vendas do setor porque quase um terço dos pedidos de máquinas agrícolas são captados em feiras.

“O cancelamento delas, no ano passado, fez falta. Tivemos uma carteira de pedidos muito mais baixa em abril, maio e junho, quando é o nosso maior volume de pedidos”, ressalta. A carteira de pedidos, diz, é importante para as montadoras planejarem a compra da matéria-prima e a contratação de mão-de-obra.

As multinacionais de insumos agrícolas Syngenta, Bayer e Long Ping também informaram que ficarão ausentes dos eventos presenciais pelo menos até este mês. Depois, irão avaliar.

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