Você sabe como aumentar o desempenho do seu CTT?

Uso de metodologia exclusiva permite que usinas descubram gargalos a serem vencidos e aumentem em pelo menos 20% o desempenho de suas colhedoras, transbordos e caminhões canavieiros

Natália Cherubin

Uma boa parte do custo de produção da cana, cerca de 36%, corresponde ao CTT, ou seja, Colheita, Transbordo e Transporte. Sendo assim, para reduzir os custos de produção da cana é fundamental que se consiga aumentar o desempenho das operações de CTT durante toda a safra.

Até setembro de 2019, de acordo com dados da Consulcana, a produtividade média diária das colhedoras, considerando toda a região Centro-Sul, foi de 575,4 t/colhedora-dia. A média, apesar de melhor do que dos anos anteriores, ainda explica o porquê do alto custo de CTT das usinas, já que aproximadamente 48% do custo total do CTT refere-se apenas às colhedoras. Mas, então, o que fazer para elevar o desempenho desde a colheita mecanizada até o transporte de cana?

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De acordo com Antonio Afférri, sócio-diretor da RPA Consultoria, muitos são os pontos que interferem na melhora do desempenho do CTT, como alta disponibilidade mecânica dos equipamentos, maior habilidade dos operadores, maior produtividade agrícola dos canaviais e, acima de tudo, a formação de equipes de alto desempenho.

O CTT é composto por três processos diferentes, mas cujos ciclos de tempo são dependentes um do outro, seguindo uma sequência lógica. “Isso parece, e é bem óbvio, mas o que se segue não é tão óbvio assim. O VT (Veículo de Transbordo) só transborda no caminhão a cana que a colhedora conseguiu colher, ou seja, o transbordo é um gargalo do serviço da colhedora. Além disso, o caminhão só leva para a usina o que VT conseguiu transferir nele, ou seja, o caminhão é um gargalo do serviço do transbordo”.

Sendo assim, de acordo com o consultor, é preciso ter cuidado ao fazer cálculos médios sem considerar esta interdependência dos processos. Por exemplo, se cada colhedora está enchendo um VT de 20 t em 20 minutos e há quatro colhedoras na frente, quer dizer que a frente mandará 240 t de cana por hora para a usina. Isso seria verdade se não existissem gargalos, mas eles existem.

“Por isso que este cálculo médio tão simplista não é atingido. E neste caso, não há participação da Área de Manutenção Automotiva, sempre lembrada para assumir a culpa quando os cálculos médios não batem”, adiciona Afférri.

É necessário definir a “colheitabilidade” mês a mês do canavial, ou seja, a capacidade de uma colhedora colher em função de sua produtividade.agrícola, tiro médio de colheita, tempo de manobra de cabeceira, velocidade adequada de trabalho etc.

Você sabe como aumentar o desempenho do seu CTT?

“Por exemplo, se é de 717 t/dia, esta colheitabilidade só pode se concretizar se os VTs não forem gargalo. Para este nosso exemplo, se houver somente dois VTs para cada colhedora, isso será um gargalo, pois cada VT chegará 1,3 minutos depois do outro ter sido completado pela colhedora. Logo, ao final do dia, nossa colhedora irá colher 622 t/colhedora-dia, 95 t a menos do que a colheitabilidade do canavial”, detalha Afférri.

Paralelamente, se faltarem 1,5 horas de caminhão canavieiro por dia nesta frente, os VTs irão parar e farão as colhedoras também.pararem, trazendo a produtividade de cada colhedora desta frente para 570 t/dia, perdendo mais 52 t/dia. Logo, a colheitabilidade inicial de 717 t/colhedora-dia se reduzirá pelo efeito dos dois gargalos ilustrados acima, a 570 t/colhedora-dia, ou seja, 147 t/colhedora-dia a menos.

“O conhecimento e a preparação para atuar junto a estes gargalos, reduzindo e até eliminando seus efeitos é a base do treinamento.logístico de alto desempenho direcionando líderes de frentes, gestores e encarregados de CTT, e controladores de tráfego e de pátios”, frisa o consultor.

ALTO DESEMPENHO DO CTT

Segundo o consultor, para se obter um alto desempenho no CTT é importante que 10 itens sejam analisados:

  1. Como funciona o CTT de cana da usina e sua relação de gargalos;
  2. Qual é a importância da relação de VTs (veículos de transbordo) por colhedora;
  3. Uso de um simulador de produtividade de colhedora e de VT;
  4. Análise da colheitabilidade do canavial;
  5. Fatores a serem gerenciados no dia a dia de uma frente de colheita mecanizada;
  6. Formação de equipes de alto desempenho;
  7. A atuação do Controle (ou Central) de Tráfego como maestro da logística de abastecimento ininterrupto de cana na usina;
  8. Saber a diferença entre Disponibilidade Mecânica (responsabilidade da equipe de manutenção) e Eficiência Operacional (responsabilidade dos gestores das frentes);
  9. Saber como reduzir os tempos perdidos e aumentar a eficiência operacional das frentes;
  10. E, por fim, perseguir as metas de desempenho, de perdas e de impurezas durante todo o período.

“O alto desempenho consiste na administração dos tempos auxiliares intrínsecos a estas operações, ou seja, é transmitida para a liderança operacional a importância da gestão de tempos e eventos dentro da logística interna da frente de colheita”, adiciona Afférri.

DICAS DE ALTO DESEMPENHO

Três boas práticas, segundo o consultor da RPA Consultoria, podem garantir bons resultados no CTT:

1) Colhedora manobrando de um lado, VT manobrando do outro

Afférri explica que, se num final de tiro a colhedora virar para o lado da cana que está em pé para fazer sua manobra, enquanto o VT virar para o lado contrário, fazendo sua manobra ao mesmo tempo em que a colhedora está fazendo a dela,.sem esperar, isso poderá reduzir em até 1 minuto o tempo médio de manobra (Figura 1). “Imagine que a colheitabilidade inicial de nossa colhedora do início do exemplo, de 717 t/dia, tivesse sido calculada com tempo médio de manobra de 1,5 minuto. Se este tempo for reduzido para só 1 minuto, a colheitabilidade da colhedora subirá em 47 t/dia, indo a 764 t/colhedora-dia.”

Você sabe como aumentar o desempenho do seu CTT?

2) Ajustar a velocidade das colhedoras ao canavial e a habilidade dos operadores

Existem situações em que os canaviais permitem maior velocidade das colhedoras do que o que vem sendo realizado,.sem impactar nas perdas de colheita e no aumento de impurezas, muito menos no arranquio e no abalo de soqueiras.

“Voltando à colhedora com capacidade de 717 t/dia que imaginamos estar trabalhando em média a 4,5 km/h, se ela trabalhasse a 5,0 km/h, ganharia 64 t/dia,.passando para 781 t/colhedora-dia. A colhedora deve colher na velocidade máxima possível, desde que o operador consiga em seu aceiro o mínimo de palha e terra que a usina entende como satisfatórios, sem arranquio de soqueiras e sem expor a.máquina a condições de indisponibilidade mecânica. Da mesma forma, a manobra ao final do aceiro (eito) deverá ser o mais breve possível respeitando as normas de.conservação das soqueiras regimentadas pela empresa”, explica o consultor.

3) Quem evita as paradas na indústria é o Controle de Tráfego

A Central de Tráfego deve saber, pelo menos a cada 60 minutos, de como está a puxada de cana de cada frente, identificando qual frente está abaixo da.meta e qual frente está acima. Assim que identificar uma frente ruim, o consultor da RPA Consultoria orienta que se pergunte ao líder da frente o que aconteceu.e quando o líder acha que a frente voltará ao normal. “O Controle de Tráfego deve verificar se vale a pena desviar viagens dos caminhões desta frente ruim para a frente boa. Mesmo que os líderes das frentes fiquem pedindo no rádio mais caminhões – o que é comum nas usinas -,.deve ser o Controle de Tráfego que decide por enviar mais ou.menos caminhões para as frentes, pois só ele sabe do andamento de todas as frentes.”

Como a colheita mecanizada não possui estoque, ou seja, é uma operação just in time com a unidade industrial, é preciso entender que o caminhão não é responsável sozinho pela entrega na usina.

“Na colheita de cana inteira existe uma transferência de estoque da cana cortada depositada no chão pelo cortador para as operações de carregamento (carregadoras) e transporte. Neste caso, quem abaste a usina são.os caminhões, ou seja, quanto mais caminhões na frota de transporte, maior impacto na quantidade de cana entregue, assim como as carregadoras em menor proporção. Esta logística contribui negativamente aos gestores atuais que, em muitos casos, mantêm este procedimento.em suas ações, ou seja, atribuindo aos caminhões a força da entrega de cana na usina”, observa.

Ainda de acordo com ele, em nada acrescenta à colheita mecanizada a adição de transbordos e caminhões no processo, pois a colhedora só vai conseguir tirar a cana do chão em função da colheitabilidade do canavial e da habilidade de seu operador, segundo uma eficiência de gestão desenvolvida pelo líder ou encarregado de cada frente.

É recomentado que se priorize a manutenção de colhedoras e transbordos que estão operando,.deixando aqueles equipamentos quebrados para intervenção após execução da agenda de intervenções preventivas ou aquelas com horário marcado, como abastecimento ou lubrificações.

“Manobras supostamente estratégicas em circunstâncias precárias de abastecimento de cana levam gestores do processo de colheita a alocarem caminhões nas frentes mais próximas naquele instante, contando com um ‘arranque’ no fluxo de entrega, o que muitas vezes dá certo, porém acompanhado de resultados insatisfatórios na qualidade da cana entregue, arranquio de soqueiras e redução da disponibilidade dos equipamentos envolvidos, por expô-los a risco de quebra ou acidente, ou seja, em indisponibilidade mecânica”, afirma Afférri.

Além disso, o bom desempenho dos transbordos e caminhões depende da distribuição espacial dos recursos envolvidos. “Esta é uma habilidade sine qua non necessária para um líder/encarregado de frente de colheita, além da capacidade de entender os efeitos dos tempos e movimentos intrínsecos da logística interna encontrados na frente de colheita.”

EQUIPE BEM TREINADA

Além da colheitabilidade do canavial, há também diferentes colheitabilidades em cada aceiro onde as colhedoras de uma determinada frente estão trabalhando. E para alcançar o máximo desempenho da frente, garantindo a meta de entrega planejada, o líder deverá organizar todos os recursos envolvidos e monitorá-los ininterruptamente, procurando manter o fluxo de cana projetado.

Neste ponto, ter organização e métodos para garantir o alto desempenho de toda a equipe de colheita é tarefa de todo líder de frente que seja comprometido.

“Cada canavial, com sua respectiva colheitabilidade, e cada operador em sua colhedora determinarão a velocidade máxima, sob a supervisão in loco do líder/encarregado da frente. Assim também deve ocorrer com os demais recursos envolvidos, transbordos e caminhões, para que o ritmo acelerado seja conduzido de forma a proporcionar o alto desempenho de toda a equipe. Por fim, a logística interna das frentes proporciona diferentes oportunidades de ganho de eficiência a cada movimento dos recursos envolvidos, como a movimentação interna para abertura de novos aceiros, alocação do pátio de transferência e a tomada dos tempos do ciclo do transbordo, em especial os tempos de carregamento, de deslocamento vazio e carregado, e para transferência da carga e o ciclo dos caminhões entre o campo e a indústria”, salienta Afférri.

Neste ponto, de acordo com o consultor da RPA Consultoria, é desenvolvida a “fusão” dos conceitos de colheitabilidade e de alto desempenho, onde o papel do controle de tráfego é apresentado, demonstrando como ele pode ser trabalhado para garantir a entrega nominal horária de cana da unidade industrial.

“O desenvolvimento de equipes de manutenção e operacional comprometidas, de forma que cada um saiba quais são suas funções especificamente, é garantia do alcance de metas estabelecidas. Isso nos faz lembrar do nosso principal objetivo ao desenvolver uma metodologia de alto desempenho do CTT: “Atender à necessidade de cana da indústria, nem mais e nem menos, mas nunca menos!”, conclui Afférri.

CTT - Uso de metodologia exclusiva permite que usinas descubram gargalos a serem vencidos e aumentem em pelo menos 20% o desempenho de suas colhedoras.
CTT – Uso de metodologia exclusiva permite que usinas descubram gargalos a serem vencidos e aumentem em pelo menos 20% o desempenho de suas colhedoras.

USINA PITANGUEIRAS

A Usina Pitangueiras, localizada em SP, iniciou a implementação do projeto de CTT de Alto Desempenho da RPA Consultoria em 2017.

De acordo com o gerente Agrícola da Usina Pitangueiras, Renato Gallão, a unidade tinha alguns pontos que precisavam ser melhorados como a sua base de dados, o dimensionamento da sua frota, o planejamento de colheita, a capacitação operacional, a adequação de potência x operação, a metodologia operacional e pontos de controle e sistemática de logística.

“Fizemos a implantação do CTT de Alto Desempenho da RPA Consultoria em 2017, realizando levantamentos para validar a base de dados, levantamentos de tempos operacionais, redimensionamento de frota e fazendo o planejamento e capacitação da liderança/operação”

Antes do projeto ser implementado, a usina fazia a moagem diária de 12.914 t com o uso de 61 caminhões que carregavam 212 t cada em um raio de 26,01 km. Em 2017, a empresa aumentou sua moagem diária para 13.172 mil t de cana com 39 caminhões que transportavam 338 t de cana cada, aumentando o raio para 26,10 km. Em 2018, a unidade aumentou sua moagem diária para 13.338 mil t, com uma frota de 40 caminhões, transportando 333 t cada em um raio de 26,70 km. Este ano, a unidade chegou a uma frota de 43 caminhões, transportando 334 t cada, em um raio de.26,44 km, mas aumentando sua moagem para 13.788 mil t por dia (Veja dados na tabela 1)
CTT - Uso de metodologia exclusiva permite que usinas descubram gargalos a serem vencidos e aumentem em pelo menos 20% o desempenho de suas colhedoras.
CTT – Uso de metodologia exclusiva permite que usinas descubram gargalos a serem vencidos e aumentem em pelo menos 20% o desempenho de suas colhedoras.

Na operação de colheita mecanizada a Usina Pitangueiras saiu de uma média de 375 t/máquina-dia em 2016, para 489 t/máquina-dia.em 2017, e ainda saltou para uma média de 534 t/máquina-dia. Projeta-se, até o final desta safra, um aumento de produtividade das colhedoras para 575 t/máquina-dia.

De acordo com Gallão, a meta da Pitangueiras é atingir a média das 610 t/máquina-dia. “Para isso, temos em nosso plano de ação o aumento da eficiência de gestão, uso do FUT (Fila Única de Transbordo), troca de turnos,.logística interna de frente e também queremos buscar alto desempenho também nas áreas de fornecedores de cana”, finaliza.