Bioeletricidade precisa de ambiente perene

Biomassa comercializou mais que fotovoltaica no último leilão de energia, mas espera condições de longo prazo que estimulem a retomada nos investimentos

* Zilmar José de Souza

O primeiro leilão regulado de energia nova promovido pelo Governo Federal aconteceu em 2005 e, desde então, a fonte biomassa comercializou energia de 146 projetos em leilões de energia nova e de reserva, ajudando a viabilizar 7.658 MW, 51% da potência instalada atualmente pela fonte no país (que é a 4ª mais importante).

Desde 2005, os leilões de energia nova e de reserva contrataram um total de 418.707.111 MWh da fonte biomassa em contratos de 15 a 25 anos. Esta geração é equivalente a mais de quatro vezes a produção anual da Usina Itaipu, ainda a maior usina hidrelétrica em produção no mundo e responsável por 21% do consumo nacional de eletricidade no Brasil em 2018.

Confira a edição 209 da revista RPAnews

Contudo, 2018 foi o 3º pior ano de contratação de novos projetos de bioeletricidade sucroenergética nos leilões regulados promovidos pelo Governo Federal, desde a implantação desta forma de contratação em 2005, com a comercialização de apenas 7 MW médios no ano de 2018. 

Agora, com o Leilão A-6, acontecido em 18 de outubro deste ano, a fonte biomassa da cana fecha o ano de 2019 com a comercialização de 76,9 MW médios vendidos nos leilões de energia nova: 69,5 MW médios comercializados no Leilão A-6 e 7,4 MW médios no Leilão A-4 que aconteceu em junho de 2019.

Já no Leilão A-6/2019 a fonte biomassa conseguiu comercializar quase 70 MW médios de seis projetos sucroenergéticos,.mais do que a fonte fotovoltaica, que comercializou um total de 59,5 MW médios. A fonte que mais comercializou energia foi a gás natural com 673,1 MW médios, seguida das eólicas com 181 MW médios e as pequenas centrais hidrelétricas (PCH/CGH) com 172 MW médios. 

O Leilão A-6 contratou um total de 1.155 MWmédios, com um preço médio de R$ 176,09/MWh, indo de R$ 84,39/MWh.para a fotovoltaica a R$ 205,78/MWh de preço médio no caso das PCHs/CGHs. As eólicas tiveram um preço médio de R$ 98,89/MWh, as.térmicas a gás natural fecharam com preço médio de R$ 188,87/MWh e a fonte biomassa com R$ 187,90/MWh.

 Inicialmente, a fonte biomassa cadastrou 25 projetos no Leilão A-6/2019, mas comercializou energia de apenas seis ao fim do processo.  Em 2008, a fonte biomassa da cana bateu seu recorde de comercialização no ambiente regulado, com 520 MW médios. Ainda assim, o resultado do último Leilão A-6 mostra que o setor sucroenergético pode responder.rapidamente de forma positiva nos leilões regulados, mas é necessário criar condições mais perenes para atrair o.investimento em bioeletricidade nos certames promovidos pelo Governo Federal.

De acordo com Zilmar, para a retomada efetiva de investimento em bioeletricidade, seria importante que a fonte possa participar nos Leilões de Energia
Existente A-4 e A-5, que acontecerão em março de 2020

Dentre elas, dedicar uma demanda a contratar maior para o produto em que a fonte biomassa e o.biogás concorrem para se estimular a contratação de mais projetos, preferencialmente estabelecendo-se.produtos específicos para estas fontes, idealmente delineados sob a ótica de uma política setorial dedicada à bioeletricidade.

 Também, para iniciarmos uma retomada efetiva de investimento em bioeletricidade, seria importante que a fonte possa participar nos Leilões de Energia Existente A-4 e A-5, que acontecerão em março de 2020. Nestes leilões, que oferecerão contratos de 15 anos,.poderão participar apenas térmicas a gás natural e carvão nacional,.sem a participação das fontes biomassa sólida e biogás.

 As fontes biomassa e biogás já têm concorrido com carvão e gás natural nos leilões A-6, mas foram excluídas destes Leilões Existentes, um revés para a biomassa que terá quase 50% de seus contratos no ambiente regulado vencendo até 2024 e estes leilões seriam uma oportunidade para investir não somente em manutenção/troca de equipamentos destas usinas a biomassa, como estimular também a reforma (retrofit) com a respectiva expansão da geração nessas usinas.

Excluir a fonte biomassa sólida e o biogás nestes Leilões de Energia Existente, pautado pelo argumento da despachabilidade não é justificativa suficiente, até porque a fonte biogás pode entregar este atributo e a biomassa da cana gera uma energia considerada não intermitente e fortemente complementar à fonte hídrica, sendo um reservatório virtual para as hidrelétricas, sobretudo no submercado Sudeste/Centro-Oeste.

Em 2019, a oferta de bioeletricidade da cana para a rede (21,5 TWh) significou ter.poupado 15% da energia armazenada total nos reservatórios das hidrelétricas do sub mercado Sudeste/Centro-Oeste,.por conta da maior previsibilidade e disponibilidade da bioeletricidade no período seco.

Ainda dá tempo para se alterar as diretrizes para os Leilões de Energia Existente. Mas, caso ocorram outros leilões deste tipo, que a biomassa e o biogás possam participar ou,.preferencialmente, que seja delineada uma sequência de leilões dedicados à biomassa e ao biogás para estimularmos novamente a retomada.do investimento nestas fontes de geração tão estratégicas para o Sistema Interligado Nacional.

 * Zilmar José de Souza é gerente de Bioeletricidade da Unica (União da Industria da Cana-de-açúcar)