Resiliência: palavra que define o setor sucroenergético em 2019

Unidades com boa governança corporativa, responsabilidade financeira e que investem em boas práticas e gestão operacional, ultrapassam a crise em crescimento

Natália Cherubin

O longo período de crise pelo qual o setor vem atravessando nos últimos 10 anos provocou um abismo entre as companhias sucroenergéticas. Se de um lado temos unidades que estão muito bem, de outro temos empresas que tiveram ou estão tendo dificuldades para continuarem sobrevivendo. Uma parte razoável do setor vem fazendo a lição de casa, tanto na questão da melhora operacional – com novas práticas agrícolas, industriais e administrativas, tornando-se mais eficiente e competitiva – quanto da governança corporativa. Estas resilientes companhias serão, de acordo com os especialistas, as protagonistas de um processo de consolidação que já vem acontecendo no setor mais lentamente, mas que, a partir de 2020 começa a ocorrer a passos um pouco mais rápidos.

Além de uma breve retrospectiva sobre o ano de 2019 para o segmento sucroenergético, a RPAnews traz para você, nosso caro leitor, detalhes sobre as práticas de gestão e operação de algumas destas unidades que estão nesse “hall da resiliência”, ou seja, que mudaram, se adaptaram e até mesmo cresceram em meio à crise.

Antes, é preciso discorrer sobre o panorama desta temporada. Afinal, como dizem muitos representantes do setor “nenhuma safra é igual a outra”. E de fato, a 2019/20 não ocorreu conforme o esperado. Foi uma verdadeira montanha russa. Como disse José Olavo Bueno Vendramini, gerente de Desenvolvimento e Tecnologia Agrícola da Tereos, durante um evento realizado no último mês de outubro: “foi uma safra de eventos extraordinários. Só faltou nevar”.

O cenário agrícola da safra era o seguinte. A expectativa no início do ciclo era um pouco negativa, diante da falta de chuvas no final de 2018 e início de ٢٠١٩ (dezembro-janeiro), período decisivo para o crescimento da lavoura. No entanto, entre abril e maio, os ânimos ficaram mais positivos porque as chuvas voltaram mais regulares, o que refletiu na recuperação dos canaviais, mas, por outro lado, atrapalharam o ritmo de colheita.

Entre junho-julho ocorreram as geadas, que em maior ou menor grau, causaram não só perdas, que serão sentidas na próxima safra – com impactos graves em Mato Grosso do Sul e Goiás – como também demandaram o replanejamento de colheita de muitas unidades atingidas por todo o Centro-Sul. Entre agosto e setembro, a seca culminou em incêndios de grandes proporções, mais uma vez, mudando o planejamento de colheita de muitos produtores.

Fernando Benvenuti, gerente Corporativo de Engenharia Agrícola e Geotecnologias da Raízen, afirmou durante evento da Canaplan em meados de outubro que, o atraso da safra somado ao que aconteceu com o clima entre abril e maio transformou o crescimento da cana. “Nossos dados de biometria mostram que foi o ano em que mais cresceu a cana média e tardia nesse período. Com as chuvas bem distribuídas, o canavial teve uma recuperação importante.”

“Começamos janeiro em sufoco, com 60 mm de chuva, depois em abril choveu bem. O ATR começou abaixo, porém as chuvas de abril garantiram o meio e final de safra e o ATR decolou na primeira semana de agosto. Vamos ter uma safra um pouco abaixo em volume, mas um pouco acima em ATR do que o planejado. Tivemos geadas, um agosto e setembro parecendo o deserto do Saara, tivemos muitos incêndios. Então, não foi a safra que a gente queria, mesmo assim, foi melhor do que o ano passado”, afirmou Vendramini.

Para Cassio Paggiaro, diretor Superintendente da Usina Atenas, que fica na região de Presidente Prudente, SP, de janeiro até meados de fevereiro o clima foi tão ruim que fez com que a unidade reduzisse sua estimativa. “Mesmo com as previsões climáticas antecipadas, elas acabam às vezes não sendo assertivas, então reduzimos a nossa expectativa em 8%. E mesmo com essa redução, teremos uma safra melhor do que foi a 2018/19. Isso, porque tivemos um outono com muita chuva. Acreditamos que fecharemos 11% acima da estimativa prevista, ou seja, vamos ficar muito próximos do que previmos em dezembro de 2018”, disse.

Apesar de estarem distribuídas em várias regiões, Rodrigo Vinchi, diretor Agrícola da Atvos, revela que as usinas localizadas mais ao Sul do Mato Grosso do Sul, tiveram uma safra não muito habitual, pois começaram com a produtividade acima do esperado e depois foram impactadas pela falta de chuvas e as geadas, que atingiram 30 mil ha.

“Em MS teremos uma produtividade abaixo do que estávamos esperando, em contrapartida, as unidades mais ao Norte e Goiás vem performando acima das nossas expectativas. Mesmo assim, esperamos uma safra levemente melhor em termos de TCH, se comparada com a safra 2018. ”

Falando de mercado, o cenário foi parecido com o que era esperado. Enquanto os preços do açúcar chegaram ao seu menor valor nos últimos tempos (US$ 10 cents), a safra caminhou, novamente, mais alcooleira e com preços melhores para o biocombustível. O setor bateu recordes de produção e consumo de etanol. De acordo com Arnaldo Correia, diretor da Archer Consulting, o consumo do ciclo otto deve fechar 3% acima do ano anterior.

O ANO DO PEDIDO DE RJ

Este ano foi marcado por um recorde do setor. Mas um recorde negativo. Foi o ano em que houve o maior número de usinas em recuperação judicial. Foram 25 unidades até o fechamento desta edição. Os últimos dois pedidos foram das usinas Bioenergia do Brasil, localizada em Lucélia, SP, e da Usina Santa Rosa, de Boituva, SP. O recorde anterior era de 13 usinas, que requereram em 2015, ou seja, 2019 teve, até agora, 85% a mais de usinas requerendo RJ do que no recorde anterior.

Resiliência: palavra que define o setor sucroenergético em 2019

Vale destacar que esse número não se refere a grupos econômicos. “Obviamente temos dois grandes grupos que requereram RJ esse ano e que impactam na quantidade de usinas. Um é a Atvos e o outro é a Santa Terezinha. Mesmo assim, o número de usinas é recorde desde que a recuperação judicial foi regulamentada e entrou em operação em usinas canavieiras”, diz Ricardo Pinto, sócio-diretor da RPA Consultoria.

A interpretação de qualquer um seria que se é um ano recorde de pedidos de RJ, então é o pior ano da crise do setor, mas isso não é verdade.

“A crise do setor começou em 2008 com o crescimento do endividamento e a partir de 2011, tivemos uma fase de preços deprimidos de açúcar e etanol. Foi uma combinação perversa, lastreada pelo etanol e, posteriormente, o açúcar também entrando em uma faixa de preços próximos ou abaixo do custo de produção do Brasil. Contudo, a crise se acentuou a partir de 2014. Ao final de anos sucessivos de preços baixos, alto endividamento, custos altos do setor, a gente está vendo o auge desta crise acumulada de alguns anos se mostrando no número de RJs”, afirma Ricardo Pinto, que acredita que até o final do ano safra o setor deverá ter mais três ou quatro pedidos de RJ.

RESPONSABILIDADE FINANCEIRA E APOIO AOS FORNECEDORES

Boa gestão operacional, com redução de custos, investimento em novas práticas agrícolas, industriais e administrativas, boa governança corporativa e responsabilidade financeira. Estes são alguns dos atributos das usinas que vêm ultrapassando os obstáculos promovidos pela crise dos últimos anos.

A Cerradão, localizada em Frutal, MG e tocada por duas famílias, é uma unidade recente, inaugurada em 2009 em meio ao furacão da crise, mas que tem conseguido crescer de forma saudável. A unidade encerrou a safra 2019/20 na primeira semana de novembro com a produção de 3.327 milhões de t de cana, 46.493 mil t de açúcar, 251 mil m3 de etanol, 330 mil Mwh de energia e 2.200 mil t de levedura.

Esses números, de acordo com o diretor Agrícola da Usina Cerradão, Florêncio Queiroz Neto, estão acima do esperado. O clima ajudou e a Cerradão investiu mais. “O bom ano é fruto do que conseguimos planejar e executar. Tivemos mais investimentos em tecnologias também. Tanto por parte da usina quanto por parte dos fornecedores. Investimos na destilaria, flexibilizando mais o nosso mix de produção. A aposta, desde o início da safra, era no etanol, que fechou em um mix de 89% nessa safra.”

A gestão de custos da usina é feita, de acordo com Neto, por meio de monitoramentos e também benchmarking com outras usinas. Outro ponto importante prezado pela usina é o relacionamento com os fornecedores.

“Estamos sempre monitorando todas as fases da cultura. E com o fornecedor da mesma forma. Um ponto legal é que se a usina tem acesso a um insumo por um valor e uma condição de pagamento diferenciados, proporciona o mesmo aos fornecedores. Não só a nossa gestão de custos é importante como a do nosso fornecedor também. Não adianta termos um fornecedor que não tenha viabilidade econômica para exercer a sua atividade”, destaca.

Para a Cerradão a relação com os fornecedores faz toda a diferença. “Conseguimos montar um time de agricultores que tem trazido para cá um alto nível de tecnologia para produzir. Temos que dar condição para que esses fornecedores cresçam junto com a usina e entreguem matéria-prima de qualidade”, adiciona Neto.

Hoje a Cerradão trabalha com base no Consecana-SP, mas está criando um programa específico de premiação que considera uma série de critérios. “Se o fornecedor entrega uma cana sadia, com qualidade e regularidade vai receber um prêmio a mais, ou seja, existe uma série de indicadores que nos faz pagar a mais pela cana do fornecedor. O importante é que a usina esteja junto com o fornecedor, dando apoio nos momentos em que ele precisa. Seja apoio financeiro ou estrutural, de máquina, por exemplo. O que temos feito aqui é isso, valorizar o bom produtor”, destaca.

Na gestão dos seus custos existe uma série de atividades que a Cerradão não faz de forma alguma. Uma delas é cana de ano, que é de baixa produtividade e muito mais cara. A segunda loucura que não fazem é a expansão de cana em áreas de pastagem, por exemplo, sem antes fazer a correção do solo e a inclusão de uma leguminosa para a consorciação com cana.

“Entramos em áreas com planejamento, fazendo a introdução de uma leguminosa antes para depois fazer a implantação do canavial. Outro ponto é sempre ter um limite de distância para trabalhar custo de frete. E por último, só entramos em áreas em que é possível fazer uma sistematização adequada, porque o custo de colheita é um custo extremamente importante. É uma série de atividades que buscamos para tentar ganhar eficiência operacional”, conta Neto.

E como garantir lucro? O diretor Agrícola da Cerradão diz que é por meio de um conjunto de fatores. “Com certeza, ter eficiência industrial. Uma indústria moderna e eficiente que traga um alto faturamento por tonelada de cana tem que ter uma eficiência industrial com mix adequado e investimento na hora certa. Acreditamos muito também na energia elétrica como ponto de remuneração para a indústria e na alta flexibilidade aliada a eficiência”, pontua.

Na agrícola, eficiência operacional e produtividade são essenciais. A Cerradão tem conseguido avançar nestes dois pontos. Tanto na performance da colheita, como no uso de piloto automático e computadores de bordo em 100% da sua frota, o que permite avaliar uma série de indicadores em tempo real por meio do seu Centro de Inteligência Agrícola, que faz a análise dos indicadores de todas as frentes de trabalho em busca de máxima eficiência.

“Por último, a empresa precisa ter saúde financeira. Ter responsabilidade com os indicadores financeiros. Acho que isso foi um dos pontos mais importantes para a Cerradão. Durante toda a nossa caminhada, a gente sempre buscou trabalhar com níveis de endividamento saudáveis. Ter uma saúde financeira que nos permitisse passar por todas as turbulências que viemos enfrentando desde 2009, quando começamos a primeira safra da Cerradão. Pegamos só subida. Estamos procurando a descida e, se Deus quiser, vai ter a descida ainda. Mas por enquanto foi só escalada”, conclui Neto.

INVESTIMENTO EM PRODUTIVIDADE

A Jalles Machado, com duas unidades, ambas localizadas em Goianésia, GO, aposta forte em investimento e boa gestão. Tanto é que a expectativa é bastante positiva para o fechamento da safra 2019/20. Em entrevista à RPAnews, Otávio Lage de Siqueira Filho, presidente da Companhia, afirmou que 2019 foi um bom ano devido aos investimentos realizados no canavial e o clima, que favoreceu a produtividade agrícola, que deve fechar acima do esperado, reduzindo os custos de produção e permitindo alcançar melhores margens.

Resiliência: palavra que define o setor sucroenergético em 2019
De acordo com Otavinho, a Jalles Machado vem investindo pesado para obter um canavial produtivo a fim de reduzir seus custos de produção

“A previsão inicial de moagem nesta safra era de 4,6 milhões de t de cana. Esperamos encerrar a safra com 5,1 milhões de t, ou seja, 500 mil t a mais, o que também resultará em um maior volume de produção de etanol, açúcar e energia. Esperamos processar 281 mil t de açúcar e 240 milhões de l de etanol, considerando as duas unidades – Jalles Machado e Otávio Lage”, conta Otavinho.

Além do aumento da produtividade agrícola, os pontos positivos da safra atual foram os investimentos que a empresa conseguiu realizar no momento certo e que foram fundamentais para uma moagem mais constante, sem muitas paradas, como a eletrificação da moenda da Unidade Jalles Machado e um terno a mais na moenda da Unidade Otávio Lage.

“Realizamos outros investimentos na Unidade Jalles Machado visando uma planta mais moderna, eficiente e segura. As obras, que totalizaram R$ 59 milhões, incluíram a reforma e ampliação do almoxarifado agrícola, ampliação do prédio de gestão industrial, a construção de um novo pátio bate-volta e balança, reduzindo o tráfego de veículos pesados dentro da planta e melhorando a eficiência no transporte de cana, a construção de uma passarela para acesso à indústria e a construção de unidade de preparo de defensivos agrícolas”, salienta.

A principal obra foi a construção do terceiro Centro de Distribuição e Armazenamento de Açúcar. Foram investidos mais de R$18 milhões no novo local que já está em operação. O investimento possibilitou a redução de custos de aluguel de caminhões e armazéns infláveis, além de dar mais espaço para organizar e separar o estoque por tipo de açúcar.

Agora, como tem sido possível, em meio a tantos altos e baixos de preços, investir? Perguntamos a Otavinho qual era o segredo da gestão do grupo. “Fazemos acompanhamento mês a mês, checando o orçado e o realizado, usando ferramentas como softwares modernos de gestão que nos permitem acompanhar e revisar se os custos estão de acordo com o estimado”, respondeu.

E quais loucuras será que eles não fazem? “Muitas usinas, em momentos de dificuldade financeira não investem na renovação do canavial. Na Jalles, mesmo em momentos crise, optamos sempre por renovar o canavial, pois acreditamos que um canavial novo e produtivo é fundamental para garantir uma boa produção”, afirma.

Para garantir lucro em um mercado de preços tão variáveis a Jalles procura diversificar a produção, com marca própria de açúcar para venda no varejo, produção de açúcar orgânico, levedura e saneantes. Também faz a cogeração a partir do bagaço e da palha da cana em parceria com a Albioma, uma empresa francesa que tem como expertise a produção de energia a partir da biomassa.

Além disso, segundo o presidente da Jalles Machado, é importante a empresa ter flexibilidade na produção para que possa focar no produto que está remunerando melhor no mercado.

REESTRUTURAÇÃO E CRESCIMENTO

Um dos maiores exemplos de resiliência é a UISA – anteriormente chamada Usinas Itamarati – que passou por um profundo processo de reestruturação operacional e financeira ao longo dos últimos três anos, que reegueu a empresa e está promovendo seu crescimento.

Resiliência: palavra que define o setor sucroenergético em 2019
A UISA conseguiu se reestruturar e agora se prepara para uma fase de crescimento, na qual se tornará uma biorrefinaria com foco em produção de energias limpas

Em 2016, José Arimatéia Calsaverini, hoje presidente da Companhia, foi contratado para equacionar as dívidas da usina, que na época eram de R$ 3,2 bilhões, entre débitos fiscais, com fornecedores e com instituições financeiras. Em entrevista exclusiva para a RPAnews, o presidente da Companhia, revelou que o maior desafio foi entender o que essa dívida significava e como ela se relacionava com a capacidade de gerar resultado da empresa.

“Eu faço um contraponto disso com o que eu considero a grande oportunidade. A estrutura de produção agrícola da UISA é espetacular. Trabalhamos para entender qual era o potencial de produção agrícola, o que essa região poderia nos oferecer e qual era a melhor estratégia de abordagem na questão da produtividade agrícola. Foi isso que nos permitiu construir um projeto que trouxesse recuperação da produtividade do canavial – que fechou em 2018 com cana própria com 94 t por ha. Trazer esses números para a realidade foi o que permitiu negociar as dívidas, ou seja, quando investidores financeiros perceberam que havia uma capacidade real de geração de caixa na usina, que ela era capaz de entregar resultados superlativos, foi quando o grande desafio de renegociação das dívidas se tornou superável”, explica Calsaverini.

Em três anos, 100% dos passivos foram reperfilados. Todas as dívidas foram renegociadas com os credores e a empresa aderiu ao Programa Especial de Regularização Tributária (PERT). Na safra 2018/19, a UISA faturou 734 milhões, registrou um Ebitda de 254 milhões e recolheu 165 milhões de reais em impostos e contribuições.

Durante o processo de reestruturação, a empresa também investiu em eficiência operacional e no aumento da produtividade. A moagem de cana saltou de 4,5 milhões de t na safra 2016/17 para 5,1 milhões de t na safra 2019/20, com previsão de crescer, em 2020/21 para 5,4 milhões de t. “Isso foi possível graças a um sistema de fertirrigação, aliado a um novo modelo de planejamento e gestão agrícola que envolve manejo varietal, mapeamento de áreas de produção, técnicas avançadas de nutrição vegetal, a adoção da matriz 3D de administração do canavial e alguns investimentos na indústria também.”

O repasse de 50% das suas áreas próprias para fornecedores foi outro ponto crucial do processo de reestruturação. Calsaverini conta que foi uma operação ganha-ganha. Com a criação do projeto Fortalecer, a UISA apresentou para um conjunto de fornecedores as regras e todos os mecanismos que tinham de incentivo.

“Oferecemos a oportunidade deles crescerem em volume em um ambiente estruturado, com arrendamentos compatíveis com o custo de produção. Estabelecemos regras de incentivo. Junto com a transferência das áreas criamos o incentivo financeiro a renovação de canavial, ou seja, para cada hectare de canavial novo a gente deu um incentivo financeiro. Transformamos isso numa ferramenta de fortalecimento porque criamos metas de qualidade, de plantio e vinculamos isso a aceleração do pagamento de dívidas antigas e a novos benefícios”, detalha Calsaverini.

A UISA criou um novo departamento de gerenciamento de originação de matéria-prima para gerir o relacionamento entre usina e fornecedor. “Toda a cana, seja própria ou de terceiros é tratada no mesmo nível hierárquico dentro da usina. Acredito que o caminho é esse, a criação de sistemas integrados de produção. A relação usina-fornecedor pode ser tratada de várias formas de acordo com cada região, mas acredito que temos que pensar na construção de sistemas integrados de fornecimento de matéria-prima que sejam mutuamente benéficos”, salienta o presidente da UISA.

A última etapa da reestruturação foi a venda de 100% das ações pela ex-acionista Ana Claudia de Moraes e a finalização do reperfilamento de todo passivo da companhia. Recentemente, a UISA passou a ser controlada por investidores financeiros liderados pelo fundo de private equity CVCIB e agora se prepara para se transformar em uma biorrefinaria com foco na produção de energias limpas, alimentos e insumos à base de cana-de-açúcar e milho.

Calsaverini permanecerá como presidente e vai liderar a companhia em seu novo ciclo de crescimento. “O processo de reestruturação chegou ao fim. Começamos agora o projeto de transformação da UISA na maior e mais integrada biorrefinaria do Brasil, convertendo matérias-primas vegetais em energia limpa, biocombustíveis, alimentos e insumos, tudo de forma sustentável”, diz.

A produção de etanol de milho iniciará em meados de 2021 e vai contar com um investimento de cerca de R$ 190 milhões. A UISA passará também a fabricar o DDG para nutrição animal. Outro produto a ser fabricado é a levedura seca, que também começará a ser produzida em meados de 2021.

Nas etapas seguintes do plano de negócios, a UISA ampliará a capacidade de sua termelétrica à base de bagaço de cana dos atuais 60 mil MWh para 300 mil MWh e passará a explorar biogás a partir de resíduos agroindustriais, com potencial de substituir 100% do diesel consumido em sua operação e comercializar o excedente. A produção de óleo de milho, a captura de CO2 para fornecimento às indústrias (fabricantes de bebidas e especialidades químicas) e o fornecimento de dextrose e sacarose também fazem parte do novo plano de negócios. “A implantação desses projetos nos qualificará como a maior biorrefinaria do Brasil”, enfatiza Calsaverini.

Localizada em Nova Olímpia, a cerca de 200 km de Cuiabá, no Mato Grosso, a UISA é dona de uma área de 84.400 ha, dos quais 32.100 ha estão atualmente ocupados com cana-de-açúcar.

CRESCENDO EM MEIO A CRISE

A CerradinhoBio, localizada em Chapadão do Céu, GO, é outra companhia que vem nadando de braçada contra a maré negativa do setor ao longo dos últimos 10 anos. Assim como a Cerradão, de Frutal, MG, surgiu em meio à crise, em 2009, e de lá para cá vem só crescendo.

A Companhia, que apostou apenas na produção de etanol e energia, ao longo dos últimos três anos conseguiu aumentar sua capacidade de cogeração e agora prepara-se para aumentar em 50% sua produção de etanol, com uma planta de processamento de milho.

Resiliência: palavra que define o setor sucroenergético em 2019
A CerradinhoBio aposta na saúde financeira e em investimentos na melhoria de suas operações. A partir de novembro, a sua nova planta de etanol de milho passará a fabricar 69 milhões de l, aumentando a capacidade da companhia em 50%

Em entrevista também exclusiva à RPAnews, Paulo Motta, presidente da CerradinhoBio, fez um balanço positivo sobre a safra e contou um pouco sobre os segredos da gestão da companhia, que teve um ano bastante positivo. “Nossa perspectiva é fechar a safra com uma moagem de cana cerca de 10% superior ao ano passado, produzindo 437 milhões de l de etanol até o final da safra e 485 mil Mwh de energia. Colocamos em operação, a partir de novembro, nossa planta de etanol de milho. Nela, vamos moer 550 mil t de milho, produzindo 69 milhões de litros até o final da temporada 2019/20”, revela.

A CerradinhoBio deverá fechar o ciclo com 5,2 milhões de t de cana, contra 4,8 milhões de t da safra anterior. “Apesar de termos enfrentado uma geada importante este ano em 20 mil ha, deveremos fechar o ano com produtividades próximas a 99 – 100 t/ha e, com isso, conseguimos ainda manter o que tínhamos no orçamento”, adiciona Motta.

Na avaliação do presidente da Companhia, além dos preços do etanol estarem melhores, como a empresa trabalha com a safra alongada, ou seja, mói até meados de dezembro e depois volta em fevereiro até completar a safra em março, uma boa parcela da produção acontece no período de entressafra do setor, momento de preços melhores.

A condição conquistada hoje tem a ver com o planejamento da CerradinhoBio em uma primeira fase, que focou na moagem de cana. Em 2009, a Companhia começou moendo 2,5 milhões de t, crescendo a capacidade aos poucos.

“Em 2015/16 atingimos 4,2 milhões de t. A partir daí, viemos crescendo ano a ano, de pouquinho em pouquinho, trabalhando em desgargalamento e otimização operacional. De 2015/16 até o ano retrasado, focamos no crescimento da nossa capacidade de cogeração. Isso foi muito importante. Colocamos uma caldeira de Leito Fluidizado, o que deu um salto na capacidade de cogeração e abriu a oportunidade de ter excesso ou sobra de capacidade de vapor e energia. Essa oportunidade levou a Cerradinho Bio a buscar uma forma atrativa de utilização dessa capacidade ociosa que culminou na expansão com o milho, que foi o investimento feito nos últimos dois anos”, conta Motta.

A empresa vem crescendo de maneira contínua e colhendo resultados positivos. Diferente de outras usinas do setor, a CerradinhoBio decidiu não fazer açúcar, apostando no milho. E até agora, segundo o presidente da usina, a estratégia adotada vem dando certo. “Construímos a base comercial de venda de energia através dos leilões que foram fechados antes da usina implementar a expansão. Então temos contratos que na sua média estão girando em torno de R$ 250 por Mwh, o que é bastante positivo.

Em um mercado de commodities, a regra áurea de sobrevivência é ser diferenciado em custos. De acordo com Motta, ter essa clareza leva o time da CerradinhoBio a trabalhar com inovação, criatividade e disciplina diariamente. Além da logística muito competitiva, a usina ainda tem conseguido manter a produtividade de seus canaviais constantemente em três dígitos, o que não é muito comum dentro do setor.

“A nossa produtividade de colheita na operação de CTT se não é a maior é uma das maiores. Atingimos 930 t de cana por máquina/dia. O planejamento estruturado de longo prazo, desde a implementação da área de cana, do planejamento agrícola e o cuidado do dia a dia é o que nos leva a ter uma posição sólida de custos. Mas temos mais a fazer. O mercado vai ficar cada vez mais competitivo. Se entrarmos em situações onde o petróleo tende a baixa de preço, vamos ver o preço do etanol cair também, então precisamos ficar atentos aos custos”, salienta Motta.

Outro ponto muito importante na usina é a extrema cautela na gestão de caixa. Segundo o presidente, a empresa não se expõe a situações de risco. A CerradinhoBio é bastante criteriosa na decisão de investimentos.

“Só fazemos quando podemos assegurar o retorno que é prometido na hora da avaliação e decisão. Além disso, damos prioridade ao que é importante no nosso planejamento para não nos colocar em uma situação de dificuldade de caixa e descontrole. Somos muito, mas muito cautelosos na gestão do dia a dia com o caixa. Felizmente, temos uma posição bastante sólida em relação as dívidas, em relação a forma como nos relacionamentos com os órgãos de financiamento e é isso que nos dá segurança de que, se entramos em uma situação de preços mais negativos, temos condições de continuar operando bem”, complementa Motta.

2020/21 EM DIANTE: O QUE ESPERAR?

A UISA já tem seu planejamento para os próximos cinco anos. A meta é bater as 6 milhões de t. Mas para 2020/21 a companhia prevê moer 5,5 milhões de t. “Estamos nos preparando para isso. Como estamos começando os últimos testes do modelo para orçamento, podemos ter uma pequena variação entre 5,4 a 5,6 milhões de t, mas o target do plano de cinco anos é 5,5 milhões para 2021”, afirma Calsaverini.

A Jalles Machado está positiva e prevê uma boa temporada. Otavinho diz que acredita no setor. “Esperamos que no próximo ano possamos ter uma boa safra, com preços mais competitivos principalmente para o etanol. Os preços do açúcar também devem melhorar, mas estamos mais otimistas em relação ao etanol”, diz.

Paggiaro, presidente da Usina Atenas, afirmou que está vendo “o copo bem mais cheio” para ano que vem. “Em função do diagnóstico que temos feito nos canaviais, em função de investimento em tecnologias e no manejo agronômico, principalmente, a gente vê que o canavial responde e isso tem acontecido conosco. Acreditamos em uma safra melhor”, comemora.

A CerradinhoBio espera, em três anos, poder elevar ainda mais sua produção para 6 milhões de t de cana. “Vamos investir, entre esse ano e 2020, mais R$ 50 milhões no desgargalamento do processo de tratamento de caldo na usina de cana. Se a gente moer 5,2 milhões de t esse ano, na safra 2020/21 vamos ter um crescimento na ordem de 5% a 7%. Ainda vamos carregar um pouco da consequência das geadas, mas temos cana para fazer esse crescimento sem dificuldades.”

Correa, da Archer Consulting, está bastante construtivo com relação a 2020 por uma série de razões. Primeiro pelo crescimento do consumo do ciclo otto e segundo porque o Brasil terá um ano mais positivo na economia. Estima-se que ela deva crescer 2%. “Se isso ocorrer podemos dizer que o consumo de combustível vai crescer até 3,5%, e como não temos expansão canavieira, vamos ter uma arbitragem muito acirrada entre o açúcar e o etanol, o que significa dizer que o açúcar vai ter que subir de preço para alcançar a paridade com o etanol”, analisa.

O que pode dar errado nesse quadro, de acordo com ele, é se houver uma queda vertiginosa do preço do petróleo no mercado internacional. “O petróleo deve ficar em torno de US$ 60 o barril, então isso não vai afetar. Precisaríamos assistir uma valorização muito grande do real, o que também mão acredito.”

A Índia ainda deverá exportar 3 milhões de t, podendo chegar até a um pouco mais do que isso, mas esse um pouco mais além dos 3 milhões vai depender do mercado internacional, que precisa chegar aos US$ 13,50 a US$ 14 cents para que possibilite a Índia exportar esse excedente, segundo Correa.

“Estou vendo muito mais um cenário de pontos positivos do que pontos negativos. Isso não quer dizer que estamos extremamente otimistas, que o mercado vai para US$ 17 cents. Estamos dizendo que o chão do mercado está se elevando cada vez mais. Diria que vai ser um ano de bons resultados para as usinas, principalmente em função da necessidade do etanol no mercado interno e da pouca disponibilidade de açúcar do Brasil em função de uma safra de cana pequena”, projeta o consultor.

Figliolino diz que a partir de 2020, os movimentos mais imediatos serão de consolidação de canaviais e alguma atividade de M&A bastante seletiva, de vizinho comprando vizinho cujo potencial de sinergia é grande. “Greenfields só bem mais pra frente e se o mercado oferecer condições para isto.”

Ricardo Pinto diz que espera poucas mudanças para a nova temporada 2020/21, com um cenário de preços não tão diferente em relação a 2019/20, com a produtividade agrícola também não tão diferente e canaviais ainda envelhecidos.

“Teremos usinas brasileiras enfrentando problemas de liquidez e caixa, então não projeto muitas mudanças. Por outro lado, vai crescer a reativação de boas usinas que estavam paradas ou boas usinas em situação financeira ruim trocando de mão, principalmente aquelas em RJ. Se os juízes definirem que podem ir a leilão, devemos ter um crescimento dessa situação de usinas viáveis em regiões de menor competição por cana e por terra. Eu diria que nas próximas duas a três safras teremos reativação ou ligamento de parte das usinas que foram desativadas e desligadas”, afirma o diretor da RPA Consultoria.

A recuperação do setor passará por quatro fases, de acordo com ele. Em uma primeira fase, as usinas que estão com capacidade de moagem hoje ociosas, deverão recuperar seus volumes de cana. Essa fase vai acontecer entre 2020/21, 2021/22 e 2022/23. Nos primeiros três anos teremos grupos mais saudáveis enchendo sua capacidade de cana, porque estão com as indústrias ociosas, hoje ao redor de 20%. Junto com essa primeira fase, mas acontecendo em pararelo e durando, talvez, de três a cinco temporadas, veremos a recuperação de unidades que estavam desligadas ou paradas concomitantemente ao crescimento da produção de cana-de-açúcar.

Em uma terceira fase, a partir da safra 2023/24 até 2029/30, Ricardo Pinto diz que o setor voltará a ter novos greenfields, onde há espaço, onde há perfil de custo de terra menor e aliado com a disponibilidade de água para a irrigação.

“Entremeado entre a primeira e a segunda fase, já está viva a fase do etanol de milho, que acho que vai acontecer nas destilarias anexas, algumas usinas do Centro-Oeste e como destilarias independentes só de milho. Essas são as quatro fases que vejo para o setor de 2020 a 2030 e que garantirão o crescimento da oferta necessária de etanol para atender o mercado doméstico, principalmente.”

Uma barreira importante a ser vencida nos próximos anos é a da produtividade agrícola. A cana hoje em muitas usinas representa 80% de todo o custo de produção de 1 kg ou de 1 litro de etanol, número muito alto, de acordo com Ricardo Pinto. Grande parte disso se dá em função da produtividade agrícola atual, que está ao redor de 75 t por ha, número muito baixo e que veio decrescendo ou se estagnado nas últimas safras.

“Esse desafio é grande e não basta crescer um pouquinho, voltar para 80 t por ha. Temos que pensar maior, utilizar tecnologias como a irrigação e buscar canaviais de 150 a 180 t/ha. Já é uma realidade que tem que acontecer cada vez mais neste setor, para que a gente tenha custos atrativos para uma nova fase de expansão e crescimento. Somos muito competitivos em relação ao mundo, mas precisamos estar blindados contra as próximas crises que virão. Um setor produtor de commodities sempre terá altos e baixos. Precisamos crescer nas crises para crescer mais ainda quando tivermos fora dela”, conclui o diretor da RPA Consultoria.