5 fatos que o setor canavieiro precisa acompanhar em dezembro

Ficar atento aos impactos do Coronavírus no consumo de açúcar no mercado mundial, ao comportamento das exportações da commodity e também ao consumo de etanol no mercado interno, são alguns dos pontos que o setor sucroenergético deve de olho nos próximos meses, de acordo com o professor da FEA/USP e especialista em planejamento estratégico no agronegócio, Marcos Fava Neves.

Estimativas da Unica (União da Indústria da Cana-de-açúcar) para a safra 2021/22 apontam para uma produção 4% menor, com moagem total de 575 milhões de t. No etanol, a queda deve ser de 5,2%, de 27 bilhões deste ciclo para 25,6 bilhões no próximo. Já o açúcar deve sofrer retração de 10%, dos atuais 38,2 para 34,2 milhões de t.

“A seca prolongada e os efeitos do La Niña são os principais fatores que explicam estas projeções”, afirma Fava Neves. Ainda de acordo com ele, com o aumento nas vendas internacionais de açúcar e dólar em patamares elevados, o setor sucroenergético passa por uma boa fase de redução de alavancagem, a qual deve se estender visto as antecipações de vendas já constatadas.

Pesquisa do Itaú BBA com 59 usinas da região Centro-Sul revela que as receitas do setor cresceram 11,35% atingindo R$ 61,8 bilhões. O Ebitda aumentou quase 22%, chegando a R$ 15 bilhões e os investimentos totalizaram R$ 10,3 bilhões (+24%), no comparativo da safra 2019/20 com a anterior. “É verdade que a dívida liquida também cresceu 13% para 51 bilhões, explicado pela variação cambial”, afirma Fava Neves.

Dados da RPA Consultoria mostram que hoje, 22% das usinas (96 do total de 444) estão em processo de recuperação judicial, outros 6% (27) estão falidas e 23% (103 usinas) estão paradas. “Os números são consequências ainda presentes da crise que o setor atravessa desde 2008, intensificada com a pandemia“, adiciona Fava Neves.

A partir de agora, de acordo com Fava Neves, a cadeia canavieira precisa ficar atenta a 5 principais fatos em dezembro:

1) Observar o consumo de etanol no mercado interno

De acordo com Fava Neves, com dados da SCA, o litro do hidratado está em torno de R$ 2,50 com impostos nas usinas e o anidro a R$ 2,55. O barril do petróleo tipo Brent esta na casa de US$ 49, com boa recuperação no mês.

2) Acompanhar os impactos do coronavírus no consumo mundial do açúcar

Com o açúcar a 14,45 cents/libra peso na tela de março de 2021 e, com o câmbio atual, é um elevado preço em reais. Tem-se bom câmbio, boas exportações para a Ásia e quebras na Tailândia, o que representou uma grande janela.

“Ano que vem temos que alocar mais cana para etanol e fazer o mercado de açúcar permanecer firme. A Índia, com o aumento de produção, é o fator baixista principal nesta safra que se iniciou. Acredita-se que a maior parte do estoque ainda existente hoje no Brasil já foi vendida”, comenta Fava Neves.

3) A falta de chuvas no desenvolvimento da safra 2021/22

Isso, de acordo com Fava Neves, reduz a moagem para o próximo ciclo. As expectativas são de 575 milhões de t de cana em 2021/22, entre 3 a 4% a menos que nesta safra.

4) As exportações de açúcar do Brasil estão incrivelmente altas e os estoques estão caindo, o que pode refletir na situação da próxima safra e preços no mercado interno

5) Observar o que deve acontecer com os planos de Joe Biden nos EUA e as políticas na área do etanol de milho e nas questões ambientais. A adoção do E15 nos EUA seria o maior presente ao agronegócio mundial em 2021.

ATR foi presente de Natal

O setor sucroenergético começou a safra 2020/21 em abril com o ATR a R$ 0,70/kg. Em maio, caiu para R$ 0,69 continuando a cair em junho para R$ 0,68 e em julho para R$ 0,66, trazendo o acumulado para a mínima do ano, R$ 0,68.

A partir de então os ganhos vêm sendo expressivos, de acordo com Fava Neves. Agosto fechou a R$ 0,69 e setembro próximo a R$ 0,73. Outubro chegou a pouco mais de 0,79 e novembro em 0,82. “Com isto o acumulado já chegou em R$ 0,72. Podemos ainda passar de R$ 0,74 até o final da safra (valor acumulado). O valor do ATR morro acima é presente de Natal ao setor canavieiro”, afirmou Fava Neves em seu Boletim Cana 30.