Conjuntura – Sucessão familiar: é preciso planejar

Fazer um bom plano de sucessão é essencial para a continuidade nos negócios

Alisson Henrique

O agronegócio brasileiro está repleto de famílias tradicionais com negócios que perduraram por várias gerações. As empresas familiares são um dos pilares do agronegócio e seus valores e tradições são a base para o fornecimento de grande parte da produção alimentícia e energética do Brasil, resultando em 13% de crescimento do setor em 2017, enquanto o PIB do País cresceu apenas 1% neste mesmo ano.

Uma pesquisa da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) sobre o perfil do produtor rural aponta que cerca de 70% dos agricultores e 40% dos produtores estão há mais de 25 anos na atividade. Entre os filhos destes trabalhadores, 28,6% participam do dia a dia da propriedade. A participação de filhos ou outros parentes próximos abrem a discussão sobre o tema sucessão familiar.

“O processo sucessório em uma empresa familiar deve ser planejado levando em consideração as particularidades de cada grupo familiar e empresarial”, defende Ana Paula Malvestio

“O processo sucessório em uma empresa familiar deve ser planejado levando em consideração as particularidades de cada grupo familiar e empresarial”, defende Ana Paula Malvestio, sócia-líder de Agrobussiness e especialista em Consultoria Tributária e Societária da PwC. Além disso, o processo deve ser iniciado com a presença do fundador da empresa e com a participação ou aval de todos os envolvidos. “É preciso que haja, durante todo o processo, um clima de diálogo para tratar dos conflitos já existentes e dos que podem surgir”, acrescenta Ana Paula.

De acordo com a superintendente da Coplana (Cooperativa Agroindustrial), Mirela Gradim, para se chegar a ideia de que é necessário um plano de sucessão deve-se levar em consideração, entre outras coisas, a continuidade do negócio. Além disso, é fundamental que o processo seja feito por gente de fora. “O processo de preparação para a sucessão deve ser objetivo. O difícil de trabalhar com pessoas é mexer com sentimentos e egos. Por isso a importância de um facilitador, isento e externo, para trazer lucidez ao processo, deixando as emoções de fora.”

Os herdeiros devem estar cientes de que não vão herdar uma empresa, mas uma sociedade composta por pessoas que não se escolheram. Assim, é preciso separar claramente os conceitos de família, propriedade e empresa. “Durante todo o processo, deve haver um clima de diálogo para tratar dos conflitos já existentes e dos que podem surgir”, acrescenta Fabio Martins, professor da Fundação Dom Cabral.

Com seu processo sucessório quase concluído, o produtor Paulo Rodrigues, sócio-diretor do Condomínio Agrícola Santa Izabel, explica que a sucessão familiar está relacionada ao crescimento da família. “Uma sociedade entre irmãos é mais fácil do que entre primos ou gerações diferentes. Estamos indo para a quarta geração e há aproximadamente dez anos decidimos que precisávamos estabelecer uma governança capaz de atender as demandas societárias e do negócio. Foi aí que começamos a pensar na questão da sucessão”, conta.

Desde então o produtor e sua família vem trabalhando na estruturação do processo. “No final do ano passado concluímos um ciclo de conversas para estabelecer um acordo de sócios que agora está sendo colocado na forma de documento. Acho que com isto concluímos a primeira etapa. Agora é exercitar este acordo e revisa-lo de tempo em tempo”, afirma.

Para o produtor Mário Waitely o tema sucessão ainda é traumático porque a ideia que se tem de ter que transmitir bens aos herdeiros em vida não é algo comum na cultura brasileira. “Apesar disso, é muito melhor resolver em vida e evitar os inventários. No agronegócio esta iniciativa é muito importante e traz a continuidade dos negócios. Quando nos deparamos com o tema sucessão estamos falando de finalização de vida e tem que ter coragem para discutir este tema. É um momento muito importante de reflexão e de aprendizado”, opina.

DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO

“A sucessão para nós foi uma fase muito difícil, pois enfrentamos muitas barreiras e preconceitos, mas sempre com um objetivo: mostrar ao nosso antecessor que éramos capazes diante de tudo que eles haviam nos ensinado e com um toque a mais, a energia”, conta o produtor Mateus Belei

Apaixonado pela cana, o produtor Mateus Belei, sócio-proprietário das empresas ACC (Agro Cana Caiana) e diretor comercial da Grunner Tec, explica que sua família era de uma região tradicional em plantio de cana em meio as lavouras de café. A empresa nasceu com o seu avô e seus três filhos, que iniciaram o cultivo de cana-de-açúcar na cidade de Macatuba, interior de SP. “Tínhamos um sitio de 17 ha onde toda a família trabalhava e se sustentava. Em meados dos anos 60, meu avô ariscou um plantio de pouco mais de 7 ha de cana para produzir e entregar na Usina Zilo Lorenzetti. Essa parceria continua até hoje. ”

Os anos se passaram, a família cresceu e atualmente a produção é muito maior do que naquela época. “Foi aí que percebemos que chegou a hora de traçar um plano de sucessão.” Atualmente, a fazenda, situada em Lençóis Paulista, interior de São Paulo, colhe mais de 360 mil t por safra numa área de mais de 5 mil ha, sendo que 95% faz parte da parceria com o Grupo Zilor. “Notamos que um processo de sucessão familiar seria fundamental para que os negócios continuassem a funcionar nas próximas gerações. Atualmente o plano já está quase 100% concluído. Isso porque temos como objetivo sempre o olhar de longevidade de negócio e sucesso no projeto. ”

Quem ajudou a família no processo foi o grupo Zilor, que vem, há dois anos, preparando a família para o futuro com treinamentos e encontros periódicos com filhos dos parceiros da linha de sucessão e até mesmo com os que já estão na sucessão, com o intuito de proporcionar troca de informações sobre dificuldades no assunto, principalmente ao passar o bastão. “O pessoal mais velho ainda tem uma certa resistência”, adiciona Belei.

O produtor conta que o modelo usado por sua família pode ser considerado um modelo de sucessão que deu certo, pois cresceu 70% em quatro anos de atuação. “A sucessão para nós foi uma fase muito difícil, pois enfrentamos muitas barreiras e preconceitos, mas sempre com um objetivo: mostrar ao nosso antecessor que éramos capazes diante de tudo que eles haviam nos ensinado e com um toque a mais, a energia. Energia essa que com o passar do tempo deixou de estar presente em nosso pai, mas foi recuperada por nós com o passar dos anos. Hoje podemos ver que o medo da sucessão ficou para traz e já estamos colhendo o sucesso que plantamos”, afirma Belei.

Rodrigues explica que no projeto de sucessão da sua família o objetivo foi estabelecer as regras de como os sócios se relacionariam com o negócio, sejam eles como proprietários, gestores ou sócios. “O ponto fundamental é alinhar os interesses dos membros da família de acordo com o que o negócio pode oferecer. Para isto é fundamental que mesmo não sendo gestores, os sócios saibam exercitar seu papel de sócio”, salienta.

O DESAFIO DA SUCESSÃO

É PRECISO PENSAR NA NOVA GERAÇÃO

54%

Não possui um plano de sucessão para os executivos seniores

46%

Possui algum plano de sucessão para os executivos seniores

Fonte: Pesquisa de Empresas Familiares (2017)

A meta é conseguir que cada geração faça crescer o valor da empresa de forma inovadora em respeito à visão e dedicação do fundador. De acordo com Ana Paula, manter a família prosperando e perpetuando o negócio é um desejo comum entre os fundadores de qualquer empresa. Segundo o National Bureau of Economic Research, apenas 12% das companhias familiares chegam até a 4° geração e somente 3% vão além. Esses números mostram a dificuldade do processo sucessório. “Por isso, o processo deve começar a ser discutido e planejado com muita antecedência, conciliando os interesses e administrando as emoções que inevitavelmente aparecerão.”

Ainda de acordo com o National Bureau of Economic Research as empresas familiares se enxergam com cultura e valores mais fortes. De acordo com a pesquisa, 62% dos entrevistados brasileiros e 74% se for considerado o mundo inteiro, acreditam que cuidam melhor dos seus funcionários do que as empresas não familiares. “Essas características são muito positivas e vem se permanecendo constantes ao longo das nossas pesquisas. Entretanto, somente 28% dos entrevistados brasileiros concordam que as empresas familiares assumem uma abordagem de longo prazo em tomadas de decisão. Isso ajuda a explicar o porquê de grande parte das empresas familiares não chegarem às próximas gerações”, adiciona Ana Paula.

 

 

O produtor precisa abrir mais a cabeça e ver que o planejamento até evita que as famílias se dividam e as propriedades acabem. É possível fazer a sucessão e fazê-la da maneira correta”, conta Fernando Panobianco

 

Nos próximos anos haverá a transferência de riqueza entre essas gerações. Segundo pesquisas, um terço das empresas familiares brasileiras planejam passar o controle, tanto de gestão, quanto da propriedade, para a próxima geração. Enquanto duas em cada cinco pretendem passar a propriedade, mas não a gestão, para a próxima geração. Especialistas revelam que com essa expectativa de grande transferência de riqueza entre gerações é muito importante cuidar da sucessão. Com isso, os líderes atuais devem fazer algumas reflexões e a principal é: o que eles querem deixar para a próxima geração?

Rodrigues revela que espera deixar um negócio estruturado com uma governança bem estabelecida para que possa se perpetuar independente do gestor de plantão. Para assegurar que a próxima geração tenha os conhecimentos e habilidades necessárias para assumir os negócios da família ele conta que o tema pode ser trabalhado estabelecendo regras e condições, mas sem esquecer de que precisa haver interesse das novas gerações.

Belei complementa que a gestão familiar bem-sucedida incorpora o profissionalismo sem perder a essência da gestão familiar. Para ele, seria importante deixar um legado onde gerações futuras se orgulhem de olhar para traz e reconhecer o trabalho bem feito que fora deixado, aumentando assim a vontade de continuar a escrever a história dos negócios da família.

Para ele, ainda não é possível enumerar os maiores desafios que as gerações futuras terão, pois o setor ainda está lutando, e muito, com as atuais, mas destaca que com o avanço da tecnologia, seus sucessores terão uma ajuda e tanto. “Na agricultura tudo pode acontecer e nos surpreender. O uso e desenvolvimento da tecnologia vêm se destacando dia após dia, portanto, se a nova geração souber utilizar as ferramentas disponíveis a seu favor, acho que o conhecimento e a informação do futuro somente fortalecerão ainda mais a cultura e educação que passamos aos nossos herdeiros. ”

PROGRAMA NOSSO FUTURO

Lançado em 2017, o programa “Nosso Futuro”, criado com o apoio da Coplana e Socicana, tem o objetivo principal de trabalhar o tema sucessão familiar, ajudando e alertando os produtores sobre a importância do assunto. “A cada dia que passa o produtor precisa conscientizar-se de que a propriedade dele é uma empresa. E como toda a empresa, para ter continuidade, é necessário ter uma boa gestão. É importante discutir todos os aspectos da ‘passada do bastão’, sejam eles tributários, societários, de governança ou direito de família”, observa a superintendente da Coplana.

Na primeira edição do curso, ao longo de vários encontros, a empresa Markestrat, especializada em consultoria e treinamento em agronegócios, apresentou às famílias de produtores o funcionamento de um processo de sucessão. “Assim, ficou claro porque é tão importante discutir e acertar os detalhes deste importante momento. Como conceito central está a máxima: ‘propriedade, ativo, não é algo que herdamos dos nossos pais, mas sim, o que pegamos emprestado dos nossos filhos’. As gerações passam, mas o negócio familiar fica. É preciso, portanto, pensar na preservação da propriedade”, observa o presidente da Coplana, José Antonio de Souza Rossato Junior.

O produtor Fernando Panobianco fez o curso junto com a mãe, a também produtora e professora universitária Maria Eliana Panobianco. Segundo eles, o programa os orientou na parte de sucessão, organização das famílias, documentação, impostos, transição de bens, arrendamento e muito mais. Foi um curso bem amplo sobre um assunto bem polêmico. O produtor precisa abrir mais a cabeça e ver que o planejamento até evita que as famílias se dividam e as propriedades acabem. É possível fazer a sucessão e fazê-la da maneira correta”, conta Fernando Panobianco.

“Vejo este tipo de iniciativa com muito bons olhos. Nos trouxe informações sobre as diversas formas de fazer a governança, fazer a passagem do patrimônio de uma geração para a outra. O programa elucidou questões e mostrou como fazer, entre outras coisas, o planejamento tributário”, afirma Maria Eliana.

Para o presidente da Socicana, Bruno Rangel Geraldo Martins, é preciso pensar na preservação da propriedade. “Chamamos o que fizemos de programa porque esperamos que tenha continuidade. É ótimo quando as famílias percebem, se sensibilizam e mostram ousadia para lidar com um assunto tão meticuloso”, explica.

“As novas gerações requerem suporte e conhecimento para poder fazer escolhas certas e traçar a jornada, sem deixar de conciliar as necessidades da família e da empresa. Investir na formação dos futuros líderes é uma questão essencial nos processos de sucessão”, conclui Ana Paula.