Gestão – O empoderamento feminino no mercado de trabalho: uma importante reflexão

Temos visto cada vez mais mulheres sendo inseridas em cenários importantes do mercado, o que é muito gratificante como conquista

*Beatriz Resende

Minha visão sobre o tema talvez seja um pouco diferente do que o mercado atualmente tem tratado quanto à valorização e reconhecimento das mulheres no trabalho. Acho que um dos maiores desafios que temos sobre o tema é buscar equalizá-lo para que deixe de ser o assunto da pauta atual, com a conotação de ideologia, passando para uma discussão natural como os demais que tratamos nesse meio.

Estamos longe disso? Talvez. É importante falar? Sim, mas precisamos tomar cuidado com o fomento de que a realidade dele seja tão inalcançável que passemos a contribuir para que a procrastinação da conquista renda mais que a vitória vindoura ou já presente. Depende do nosso olhar.

A discussão da igualdade do gênero no trabalho tem se calcado na disparidade de ganhos, oportunidades e desafios; desigualdade no tratamento e respeito; preconceitos tradicionais; limitações oriundas da vida pessoal e familiar das mulheres; paradigmas de incapacidade intelectual, física e emocional, entre outros.

Acho importante discutir tudo isso, de forma madura, não especulativa e sensacionalista, e proponho que também se acrescente que o cenário vem mudando. E muito! Claro que diante do ideal temos um caminho a percorrer. Tratemos como um desafio e não como uma luta. Espaços estão sendo dados: não estão nos tirando, simplesmente, pelo preconceito ou por ainda não acreditar em nossa competência. Tem muito espaço nos esperando e estamos ocupando-os, na medida em que eles aparecem e somos colocadas num mesmo patamar de avaliação para escolha. Assim como para os homens, vai sempre depender muito de nós também. Acho isso natural.

Hoje há vários assuntos em discussão e o preconceito e o desrespeito envolvendo a mulher permeia a maior parte deles, e por isto fica difícil não separar o sentimento de impotência e injustiça que nos toma. Mas creio que possamos dar o devido tom a cada um desses aspectos para uma análise mais cristalina.

Temos visto cada vez mais mulheres sendo inseridas em cenários importantes do mercado, o que é muito gratificante como conquista. Já há um triunfo claro e eu valorizo isso.

A partir do século XIX a mulher passa a entrar no mercado de trabalho de forma mais expressiva. O sentido de carreira, e não do emprego somente, tomou força a partir do século XX. A caminhada pelo espaço esperado, da forma esperada, pode parecer longa, mas talvez essa escalada seja mesmo gradativa, não pela questão de ser mulher somente, mas pela própria revolução que o mundo passou, onde todos, homens, mulheres, mercado de trabalho e empresas estão se reposicionando para o entendimento desse todo e sua melhor aplicação.

Olhando para minha história, por exemplo, entendo que existem situações que, em algum momento de nossas vidas, podem impactar no ritmo de nossas carreiras. Isso vale para os homens também. Isto porque temos que fazer escolhas.

Eu falo de escolhas como um ponto importante dessa reflexão: hoje as mulheres têm mais opções do que antes e a escolha pela dedicação exclusiva ou intensa à carreira já é realidade. Por outro lado, também uma parte delas não tem como objetivo a realização através de carreira. Podem buscar um bom emprego, e isso é válido, assim como outras que podem, ainda, fazer a opção por não trabalhar. O panorama é bem diversificado.

Também os homens fazem escolhas ao longo de suas carreiras que podem afetar a sua caminhada ao topo: casos de profissionais com excelentes oportunidades fora da sua cidade ou país, por exemplo, e que por questões familiares optam por não aceitá-las. Situações como estas também podem causar um descompasso na carreira do homem. De novo: “escolhas”.

Pesquisas citam que ainda poucas mulheres chegam ao topo das carreiras (CEO, CFO, outros) por um lado, mas de outro vemos que muitas estão conquistando seus espaços por merecimento. É uma questão de tempo, de oportunidade, de estímulos, de suporte e não somente de quebra de preconceitos.

Eu, particularmente, gostaria muito que essas pesquisas também enfatizassem um lado importante de ser entendido: nem todas as mulheres abrem mão de parte de suas vidas para esse propósito, sem culpa ou com total apoio da família e cônjuges. Nem todas tiveram e têm uma estrutura que dê o suporte para conseguir seguir nessa caminhada ao pódio maior. Nem todas foram e são estimuladas a isso, nos modelos familiares que conhecemos. Nem todas tiveram e têm tempo de desenvolver competências e experiências que as qualificam para esse patamar. Nem todas tiveram ou têm, acima de si, um líder que acreditasse ou acredite nelas e que as estimule na sua autoestima e confiança. Nem todas também sonham chegar lá.

Li num artigo atual que “a disparidade hoje vista entre homens e mulheres em cargos de liderança não pode ser mais justificada por quaisquer limites de balanceamento entre a vida familiar e trabalho”. Concordo, mas ainda existem limitantes que impactam a maioria das mulheres. Isto é fato.

Minha sugestão é que reflitamos sobre o tema não somente com o viés do preconceito, mas sim visualizando todos os fatores aqui citados, que podem implicar nessa discussão. A meu ver, os próximos anos nos brindarão com uma certificação natural do mercado sobre maiores espaços para as melhores competências, e o discurso sairá da questão da diferença de valorização entre os gêneros. Vejam bem: se ainda é difícil para as empresas valorizar as pessoas pela diferença apresentada pelas competências e desempenho individual, e esta discussão não é nova, levemos em conta então questões que há muito são tratadas como tabus maiores.

A visão de uma profissional eleita uma das mais mulheres mais influentes do Brasil em 2016, pela Revista Forbes – Andrea Chamma: “hoje temos muito mais debate envolvendo a mulher porque mais da metade dos alunos do ensino superior é do sexo feminino”. E essa geração, naturalmente, discute pontos e estimula mudanças antes não previstas. Não temos dito que a geração Y veio transformar as empresas? Não é uma questão isolada da mulher. É uma evolução de pensamento, onde haverá possibilidades e espaços para todos, de várias maneiras e em vários níveis.

* Beatriz Resende é consultora Organizacional, palestrante e conselheira de Carreira da Dra. Empresa Consultoria Empresarial.