Para produtores de cana safra 2020/21 foi melhor do que o esperado

Para o segmento canavieiro, o pior de 2020 parece ter ficado para trás. Mesmo lidando logo no início da safra com a pandemia da Covid-19, os produtores de cana estão fechando o ciclo 2020/21 mais aliviados e comemorando os bons números.

A safra teve início pessimista. A pandemia do começo do ano e a queda brusca do preço do açúcar, de US$ 15 cents para US$ 9, o etanol despencando de R$ 2 reais para R$ 1,33 e o ATR caindo de R$ 0,65 para R$ 0,59, número menor do que o da safra anterior, assustou muito o setor como um todo, de acordo com Rafael Bordonal Kalaki, CEO da Socicana (Associação dos Fornecedores de Cana de Guariba).

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“Depois do susto, o mercado se recuperou fortemente, inclusive, os preços voltaram aos patamares do início do ano, até maiores. O dólar subiu muito e ajudou o setor. O cenário ficou extremamente positivo e ainda está nos surpreendendo. Falamos de R$ 0,73, R$ 0,74 e até R$ 0,75. Temos tudo para terminar uma safra melhor do que esperávamos”, afirma Kalaki.

Os números de ATR ficaram bem acima do que era projetado pela Socicana no início da safra. “Por conta disso o produtor vai ter um ano bem melhor do que foi o ano passado. Temos US$ 10 cents por kg de ATR a mais, mais de 10% de expectativa de preço, fora a expectativa de volume de cana maior. Tivemos algumas áreas que tiveram quebra, mas fora isso, no geral, tivemos mais cana e cana com mais qualidade e mais preço”, destaca Kalaki.

O produtor de cana e diretor do Condomínio Santa Izabel, localizado em Jaboticabal, SP, Paulo de Araújo Rodrigues, conta que nesta safra, por conta do clima, teve uma leve queda na produtividade, em relação à safra anterior, mas boa qualidade da matéria-prima.

“O nível de chuva acumulado foi baixíssimo em 2020, o que afetou a produtividade agrícola em TCH. Tivemos uma redução da ordem de 5% em Jaboticabal e 6% em Frutal (MG). Por outro lado, houve melhora na qualidade da matéria-prima”, afirma.

Para ele, se o ATR fechar em R$ 0,73, será bastante razoável. “Embora tenhamos tido menor oferta de ATR, do ponto de vista de faturamento ficou bem próximo do que a gente previa no início da safra”, adiciona Rodrigues.

Custo de produção cresce em 2021/22

Os custos de produção para o fornecedor de cana têm aumentado. Este ano, de acordo com Kalaki, estima-se que houve um aumento na ordem de 8% a 10%.

“Alguns insumos tiveram uma queda nos preços diante da pandemia e da especulação de mercado parado e menor demanda. Mesmo assim, com o câmbio nesse patamar houve aumento dos custos de produção. Por outro lado, teve maior investimento por parte do produtor no canavial a partir de maio. Na época da adubação, o produtor aqui da região substituiu fertilizantes mais tecnificados por fórmulas mais simples e básicas, mas que necessárias para a cana.”

Ainda de acordo com ele, os fornecedores investiram bastante em defensivos mais tecnológicos e até mais caros, principalmente quando começou a recuperação dos preços.

“Para safra seguinte existe uma tendência de aumento, principalmente por conta do dólar. Aquele susto de demanda não existe mais e tem a questão do câmbio. Teremos aumento de custos de produção para 2021/22 e um item que deve preocupar é a falta de produtos. Algumas fábricas podem ter falta de uma ou outra matéria-prima, o que certamente elevará o custo de produção”, adiciona o CEO da Socicana.

Preços dos grãos atrai produtores

Em relação a cultivo de grãos, houve aumento expressivo no preço dos produtos soja, amendoim e milho. E esses preços empolgaram muito os produtores, principalmente no cenário do início de fevereiro, com a queda do preço da cana.

Com isso, muitos produtores postergaram o plantio de cana. Alguns, que iriam plantar cana em fevereiro, preferiram fazer mais um ano de grãos e deixaram a cana para o ano seguinte, para aproveitar os bons preços dos grãos em relação ao cenário incerto da cana-de-açúcar.

“O preço da soja chegando a R$ 150 reais a saca dá um apetite gigante para o produtor plantar grãos. Substituir uma cultura pela outra do dia para noite é difícil, mas os produtores que já plantam grãos estão com um apetite enorme para plantar mais. O que vai limitar isso é a disponibilidade de áreas, sejam de outros produtores, que vão fazer reforma, ou da usina, que passa áreas de reformas para fornecedores. Mas o que sobrar em áreas, esses produtores vão competir”, observa Kalaki.

Rodrigues plantará mais soja do que na safra anterior. No entanto, esse aumento somente se dará porque o produtor teve que mudar seus planos e reformar mais canaviais.

“Vamos ter mais soja nas áreas de rotação de cana basicamente por conta de acidentes com incêndios que tivemos ao longo dessa safra, que prejudicaram os canaviais. Aumentamos a área de reforma para atender canaviais em que a brotação ficou muito prejudicada pelo clima e agravado por incêndios. Em relação a estimativa inicial, teremos algo em torno de 15% a mais do que íamos plantar em área de cana”, afirma o produtor de cana.

Safra 2021/22

Para a safra 2021/22 existe uma preocupação em relação a produção de cana. Os canaviais passaram por um período prolongado de seca nessa safra, de mais de 100 dias sem chuva em algumas regiões do Centro-Sul.

“A cana é muito resiliente e conseguirá se recuperar se tivermos um volume bom de chuvas. Existe uma apreensão para a safra que vem, se esse volume de chuva virá agora no final do ano, período de crescimento vegetativo da cana e quanto dessa cana se recuperará. Então não há uma expectativa de safra com volume, como foi essa. Poderá ser uma safra menor, por outro lado, uma expectativa positiva com relação a preços, nos mesmos patamares desta safra ou até maiores”, afirma Kalaki.

Os preços bons vão depender da relação de câmbio e demanda dos produtos. Para o CEO da Socicana, o câmbio tende a cair um pouco mais do que foi este ano.

“Na safra que vem teremos uma regularidade maior de preços e um câmbio menor. A expectativa é boa, mas há uma insegurança com relação a produção e o que vai se recuperar desse canavial”, conclui.

Para Rodrigues, é cedo prever a safra que virá, no entanto, ele acredita que a seca terá efeito negativo para o próximo ciclo.

“A seca severa piorou a qualidade dos canaviais. E dependendo da época de colheita, da variedade, do ciclo da cana, temos mais ou menos efeitos. Em alguns locais não tem brotação de soqueira garantida. Minha preocupação é que vamos carregar muitas falhas e, dependendo do clima, pode ter efeito na produtividade. Se o clima for normal, poderemos repetir a safra desse ano, se for muito bom, teremos uma melhoria”, observa o produtor que acredita em uma safra de preços melhores do que os deste ano.

Por: Natália Cherubin