Mercado sucroenergético finalmente adota metodologia FEL

Por Vítor Coelho, da Reunion Engenharia 

Vivemos na primeira década deste milênio um grande boom de projetos executivos no mercado sucroenergético. Foram inúmeros os projetos greenfield para instalação de novas usinas sucroalcooleiras. Projetos brownfield, ou seja, que buscam ampliação de capacidade ou  modernização de plantas industriais existentes, também saíram do papel e foram significativos naquele período, principalmente aqueles que buscavam maior geração de energia elétrica através do aumento de pressão do vapor direto das caldeiras.

Não foi incomum, porém, que muitos destes projetos greenfield executados neste período, sofressem significativas alterações de escopo e/ou aumentos de custos inesperados durante fase de implantação, resultado este, possivelmente devido a incertezas técnicas e orçamentárias traçadas de forma muito simplificada durante a etapa de projeto básico.

Já na 2ª década do milênio o número de projetos executivos no mercado sucroenergético foi significativamente menor por inúmeros motivos, mas principalmente, pela crise econômica e as incertezas políticas vividas no período.

Por outro lado, o mercado finalmente se conscientizou que o tempo a ser desprendido nos estudos de engenharia básica deveria ser ampliado a fim de minimizar as eventuais mudanças de escopo e desagradáveis estouros orçamentários vividos em projetos anteriores.

A metodologia FEL, apesar de ser uma antiga ferramenta da gestão de projeto com relatos de utilização na DuPont e Exxon desde a década de 60, passou finalmente a ser adotada como ferramenta para novos projetos em usinas sucroenergéticas no Brasil.

O desenvolvimento de projetos segundo metodologia FEL permite uma visão detalhada do empreendimento antes de sua execução, permitindo alinhar as atividades aos objetivos do projeto, mais controle e monitoramento das atividades envolvidas, a redução de riscos, rastreabilidade e confiabilidade nos custos do projeto e em suas viabilidades técnica e econômica.

Ter esta visão detalhada, explicitando as vantagens e as desvantagens de cada opção, é fundamental para se evitar atrasos no cronograma e alterações relevantes do escopo do projeto nas fases de execução, montagem e operação do projeto, uma vez que tanto os atrasos quanto mudanças no escopo implicam custos elevados, que podem, inclusive, tornar o projeto inviável do ponto de vista técnico e econômico.

Destacam-se então as principais vantagens da metodologia FEL:

  • Dividir a tomada de decisão em 3 etapas distintas no tempo: FEL1, FEL2 e FEL3.
  • Obter de um levantamento estimativo de custos Capex com baixo índice de incerteza e alta rastreabilidade.
  • Permitir a elaboração de estudo de viabilidade econômica mais confiável (payback, TIR, VPL, etc).
  • Fornecer dados confiáveis para tomada de decisão de investimento.
  • Minimizar mudanças ocorridas durante a execução do projeto.

Aplicado para indústrias de processos, um projeto básico na fase FEL2 já contará com a elaboração de diversos documentos de engenharia como fluxogramas de processo, balanços de massa, layout preliminar, especificações técnicas de equipamentos, diagramas unifilares elétricos, arquiteturas de automação, projetos civis e estruturais básicos, cronogramas e listas de materiais diversas que compõem o conceito técnico de cada cenário em estudo. Todos os documentos citados serão preliminares nesta fase, e servirão como referência para obtenção do Capex preliminar FEL2.

Neste levantamento de custos, é prudente que, para os serviços ou equipamentos cujos preços estimados forem maiores que 15% do custo global esperado do projeto, seus respectivos fornecedores já sejam previamente consultados para obtenção de valores mais precisos. Para demais equipamentos, materiais e serviços, o custo pode ser estimado através de banco de dados orçamentários, reduzindo assim o tempo necessário para cumprimento desta etapa.

Logicamente isso trará maior incerteza dos custos obtidos nesta fase, da ordem de – 15% a +25%. Lembremos, porém, que o FEL2 estuda geralmente mais de 1 (um) único cenário técnico, (recomendamos que sejam estudados no máximo quatro cenários) o que eleva proporcionalmente o número de documentos de referência a serem gerados pela engenharia e, consequentemente, o tempo despendido nos estudos.

O levantamento de custos FEL2, embora preliminar e com maior incerteza, servirá como referência para orientar o investidor na tomada de decisão e a responder as três principais questões desta fase:

  • Os cenários se demonstram economicamente viáveis?
  • O projeto deve seguir adiante (ou ser arquivado)?
  • Qual cenário deve ser selecionado para fase FEL3?

Embora no FEL3 seja tecnicamente possível que o projeto prossiga levando consigo os diferentes cenários de estudo, recomendamos fortemente que, no desfecho do FEL2, apenas 1 (uma) única destas opções técnicas seja selecionada (descartando as demais).

Esta importante decisão do investidor adicionará novas premissas ao projeto (além daquelas que já compunham previamente o cenário escolhido), e permitirá a realização de um FEL3 com escopo bem melhor traçado. A decisão é tomada! A porta do FEL2 se fecha. Uma nova porta se abre. É dada a largada ao projeto FEL3.

A partir deste ponto o projeto de engenharia deve ser refinado. Todos os documentos até então gerados para o cenário selecionado, são então, melhor detalhados. Novos documentos passam a fazer parte do rol, como modelamentos 3D e projetos preliminares de interligação mecânica que, embora sejam utilizados blocos de equipamentos ainda genéricos (não certificados), já permitirão uma visão clara do empreendimento na forma como está sendo concebido até então.

Todas as especificações técnicas para equipamentos e serviços (agora com caráter de “compra”) são emitidas para os respectivos fornecedores do mercado. Consultamos sempre que possível ao menos 3 (três) fornecedores para cada grupo de aquisição, permitindo assim total rastreabilidade dos valores adotados nas planilhas de custos e ainda minimizando possíveis erros para uma faixa esperada de -10 a +10%, apenas.

Finalizado o levantamento de custos e análises de viabilidade econômica de Projeto FEL3 (agora com um grau de incerteza bem menor), o investidor estará diante de um novo trade-off: a decisão de seguir (ou não) com o projeto para etapa Executiva (FEL4).

Os projetos básicos orçamentários na 2ª década do milênio e principalmente aqueles orientados pela metodologia FEL realizados neste período, superaram as nossas expectativas e foram fundamentais para que a empresa se mantivesse sólida mesmo durante a crise.

Apenas nestes últimos 3 anos, realizamos mais de 20 projetos segundo metodologia FEL apenas para o mercado sucroalcooleiro e de geração de energia. Foi o que consolidou a Reunion Engenharia como uma referência de mercado neste método de projeto.

Estamos agora prestes a entrar na 3ª década do novo século. Embora ainda diante de incertezas políticas, arrisco dizer, porém, que com maior otimismo daqui em diante, primeiramente devido à alternância do poder Executivo que promete uma menor intervenção do Estado na economia do país, ainda assim, diante das  promessas de enxugamento da máquina pública e desburocratização dos processos.

Talvez ainda seja cedo para avaliar o novo governo, porém a direção no ponto de vista econômico parece estar no caminho certo. Com a aprovação das reformas (previdência, tributária e política) fica a expectativa de retomada do otimismo do investidor e o favorecimento para que os projetos FEL3 saiam do papel partindo para as fases seguintes FEL4 (Execução) e FEL5 (Operação), contribuindo assim para geração de empregos, redução da desigualdade social e crescimento econômico do país.