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Por: Renato Augusto Pontes Cunha,

Nos últimos meses a palavra insumo ganhou destaque negativo na mídia nacional. Em meio à crise sanitária, o Brasil ressente-se de não dispor de uma indústria farmacêutica mais consolidada e da falta de matérias primas para a fabricação de vacinas. Mas nem sempre é assim. Tomando livremente o termo” insumo”, como a combinação de fatores que geram serviços e produtos, podemos dizer que o Brasil fornece ao planeta dois insumos(inputs) de eficiência amplamente comprovada, para a imunização contra o aquecimento global.

Dispomos da maior floresta tropical do mundo, com bilhões de toneladas de carbono estocados, e uma diversidade ímpar de fontes renováveis para a produção de energia. Neste quesito, temos larga vantagem em direçao a um futuro,ainda mais sustentável.Nosso Brasil, terra da agricultura tropical , dispõe de ótima qualidade de ventos, energia hídrica e de uma robusta indústria de biocombustíveis. Nossa matriz energética tem mais de 40% de participação de fontes renováveis, contra uma média mundial de apenas 13%. Ou seja, pode-se afirmar que sem o Brasil, não há como vencer as mudanças climáticas.

Excluindo-se a pandemia, não há, em nosso tempo, uma questão mais relevante do que a ambiental. Está nas pautas estratégicas de quase todos os países. No Acordo de Paris, em 2015, houve um compromisso global firmado por mais de 190 nações. Ali foram estabelecidas metas nacionais com o objetivo de frear o aquecimento planetário até 2030. Nesse corrente mes,o Presidente do Brasil e outros 40 líderes mundiais foram convidados para encontro virtual,onde discutirão preliminarmente a pauta da Conferência das partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas(COP 26), marcada para Glasgow, na Escócia, em novembro próximo.

O diplomata e ex-ministro do Meio-Ambiente Rubens Ricupero, falando sobre empresas e sustentabilidade, declarou recentemente que a política ambiental não é mais algo complementar na receita do bolo, mas o ingrediente principal. Também a gestão ambiental, na hierarquia corporativa, mudou de patamar. Está hoje na linha de frente de todas as grandes empresas. Chegou, de fato, às instâncias onde estão as prioridades para o futuro. A proliferação do mecanismo de gestão “ESG-Environmental,Social and Governance Advisory” é realidade irreversível no dia-a-dia das organizações de empreendedorismo de inúmeros países .

De um modo geral, a sustentabilidade tornou-se um componente vital na produção. De modo particular, na indústria sucroenergética, é da nossa própria essência . O segmento dispõe de uma tecnologia exitosa, com repercussão mundial. O etanol e a bioeletricidade são ingredientes centrais na formulação da economia verde no Brasil.

Na “Contribuição Nacionalmente Determinada”, ou CND, firmada pelo governo brasileiro em Paris, os biocombustíveis, por exemplo, deverão atingir 18% de participação na matriz energética em 2030. Com isso, o etanol, que evita a emissão de até 90% de CO2 em relação à gasolina, terá seu consumo,provavelmente ampliado dos atuais 28 bilhões de litros por ano para cerca de 50 bilhões nos próximos nove anos.

Atualmente, o etanol – seja o anidro misturado em 27% à gasolina ou o hidratado, vendido direto na bomba( E100), é usado regularmente em milhões de automóveis flex no País. Veículos que representam 78,6% da frota leve em circulação. De 2003, quando surgiu esta tecnologia no Brasil, a maio de 2020, 515 milhões de toneladas de CO2 deixaram de ser lançadas na atmosfera graças ao uso do etanol. Este volume equivale à soma das emissões anuais de países como Argentina, Venezuela, Chile, Colômbia, Uruguai e Paraguai.

Os benefícios ambientais da produção e uso do biocombustível estão intrinsecamente relacionados com a qualidade de vida da população, conforme estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Em oito regiões metropolitanas do Brasil, a opção pelo etanol hidratado tem evitado a morte de 1,4 mil brasileiros e cerca de sete mil internações anuais provocadas por problemas respiratórios e cardiovasculares associados aos combustíveis fósseis.

Na geração de energia elétrica, as usinas sucroenergéticas, que já são autossuficientes, iluminaram 11,7 milhões de residências em 2020. Além de evitar a emissão de 6,3 milhões de toneladas de CO2, a bioeletricidade da cana poupou o uso da água nos reservatórios das hidrelétricas nos períodos mais secos do ano. O potencial da bioeletricidade a partir da palha e do bagaço é grande. Dorme, nos canaviais, uma força ainda desaproveitada equivalente à produção de algumas usinas hidrelétricas de Belo Monte.

Hoje, a indústria da cana gera emprego e renda em 1.200 municípios e movimenta um PIB de cerca de US$ 40 bilhões de dólares anuais. Para o futuro, expandindo a área cultivada sem desmatar um único hectare, é uma reserva inesgotável e contínua da mais comprovada sustentabilidade.

Por: Renato Augusto Pontes Cunha, Presidente do Sindaçúcar de Pernambuco, Presidente-Executivo da Novabio e Vice-Presidente do Fórum Nacional Sucroenergético – FNS

*artigo publicado no portal Udop

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