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Aquela que era para ser uma safra dos sonhos no segmento sucroalcooleiro está se tornando um pesadelo para algumas usinas. Os sucessivos eventos climáticos negativos – seca interminável, diversas geadas em curto espaço de tempo e depois incêndios de grandes proporções – quebraram a produção de tal forma que algumas indústrias disputaram na unha a cana de fornecedores independentes para melhorar a ocupação de suas capacidades. E pagaram um preço salgado nessa briga.

Em regiões com maior quebra de safra, há usinas pagando de R$ 150 a R$ 160 pela tonelada de cana vendida no mercado físico (spot), segundo a Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana). Os valores estão bem acima da média registrada no acumulado da safra atual (2021/22), de R$ 139 a tonelada, e dos R$ 135 por tonelada da temporada passada.

Em alguns casos, esses preços não incluem os custos de corte, carregamento e transporte da cana à usina – que, no ciclo atual, por vezes percorreu distâncias de mais de 30 quilômetros (considerado o raio máximo para que o custo não ofusque os ganhos), segundo Denis Arroyo, presidente da Orplana.

A oferta de cana no mercado físico é relativamente pequena, estimada entre 20 milhões e 30 milhões de toneladas, segundo o dirigente. Esse volume deve representar de 4% a 6% da quantidade total de cana a ser colhida em 2021/22, caso se confirme a estimativa de boa parte dos analistas de que 520 milhões de toneladas serão moídas – do início da safra, em abril, até a segunda metade de setembro, foram processadas 430 milhões. É por isso mesmo que a movimentação nesse mercado sinaliza o tamanho da dificuldade de algumas usinas em conseguir matéria-prima.

Queda na produtividade

A busca das indústrias por mais cana se intensificou depois das geadas de julho e agosto, que mataram parte dos canaviais em polos do Centro-Sul e fizeram com que algumas áreas fossem colhidas antecipadamente, com menor produtividade. As regiões mais atingidas pela seca e pelas geadas, como o noroeste e o norte de São Paulo, foram os palcos das disputas mais acirradas.

A disponibilidade de cana no mercado spot é restrita a algumas regiões, como Catanduva e Ribeirão Preto, onde há maior “concorrência” entre as usinas, e na região de Araçatuba, onde a concentração de usinas em recuperação judicial vem mantendo os produtores no mercado físico, afirmou Haroldo Torres, diretor da consultoria Pecege.

Um executivo de uma grande companhia do segmento que atua em uma dessas regiões diz que lamenta não ter comprado cana no mercado físico assim que suas lavouras foram atingidas pelas geadas. “Não comprei porque o preço estava muito alto, mas se soubesse que a quebra seria tão grande, teria comprado”, afirmou. Nesta safra, sua empresa recebeu de seus fornecedores contratados metade do volume de cana entregue na temporada passada.

Como as sucessivas intempéries afetaram também a cana que estava rebrotando após o corte, e até mesmo algumas áreas de replantio, a perspectiva é que a oferta continuará restrita na próxima safra, aumentando os preços no mercado físico.

É com esse horizonte em mente que a Associação dos Plantadores de Cana da Região de Monte Aprazível (Aplacana), por exemplo, está orientando seus associados a não fecharem contratos de longo prazo neste momento. “Acreditamos que o preço na região, que está R$ 120, vai subir para R$ 135 a R$ 145 na próxima safra”, disse Juliano Maset, presidente da entidade.

Aumento de custos

Apesar da valorização da cana, os fornecedores independentes reclamam do aumento dos custos de produção, que acabou engolindo as margens. “Mesmo com preço mais alto nesta safra, as margens da safra passada foram melhores”, disse Maset. Os principais vilões dos produtores neste ano foram os fertilizantes, os agrotóxicos e o diesel.

Segundo Torres, da Pecege, a alta dos custos ainda se concentra em atividades que geralmente a usina desempenha, como corte e transporte da cana, e por isso a rentabilidade dos produtores independentes neste ano deve ser recorde. O problema, avalia, tende a vir na próxima safra, quando os fornecedores deverão sentir os impactos da alta de fertilizantes e agrotóxicos. “Isso deve impulsionar o produtor a sair dos contratos e ficar no spot, o que é ruim para a cadeia produtiva”, afirma.

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