Tecnologia Agrícola – Sistematização e seus impactos na produção de cana-de-açúcar

É preciso encarar o planejamento e execução como uma obra de engenharia, respeitando os limites e as recomendações a fim de evitar problemas

Natália Cherubin

Um dos fatores considerados essenciais para o sucesso e a qualidade das operações de plantio e colheita mecanizadas é a sistematização de solos. Na cultura de cana-de-açúcar, o termo sistematização tem um sentido amplo e refere-se a um conjunto de práticas que organiza e define a formação da lavoura e a eficiência das diversas operações do sistema de produção.

Plantio feito em local sem correções das ondulações trazem problemas para colheita

Além disso, este conjunto de operações visa a conservação do solo, o desenvolvimento da lavoura, e define todo o desenho do canavial, como posicionamento das estradas e carreadores, definição da direção da sulcação, delimitação de talhões, nivelamento, retirada de pedras, e, em um sentido mais amplo, a alocação e construção das estruturas de conservação, como terraços de infiltração e canais escoadouros.

As características observadas são o desenho e tamanho dos talhões, posicionamento e adequação das estradas e pátios de transbordamento, espaçamento de plantio, planejamento das linhas, retiradas de pedras e tocos da área, nivelamento e homogeneidade do terreno, e definição do sistema conservacionista com a construção das suas estruturas de interceptação e condução das águas pluviais.

Armene José Conde, engenheiro agrônomo e consultor da Canassit Assessoria em Sistematização para cana-de-açúcar, explica que a sistematização é essencial para que os equipamentos utilizados desde o plantio até a colheita, que são grandes e pesados, realizem menos manobras e, por consequência, compactem menos o solo.

“Quanto menor o número de manobras, menor será a perda de tempo e o custo da operação, já que a colheita hoje representa o maior custo para uma unidade. O menor número de manobras depende do planejamento das linhas de sulcação. O nivelamento da superfície, por onde passarão os rodados dos equipamentos, também é uma operação importante. Quanto menos obstáculos e ondulações as entrelinhas tiverem dentro dos talhões, maior será a facilidade de rolamento, permitindo uma velocidade constante. Isto associado a uma boa produtividade trará um maior RMC (Rendimento Médio de Colheita). O índice de quebra das colhedoras, principalmente do mecanismo de corte de base e elevadores, também será menor”, observa.

As ondulações e irregularidades do solo impactam diretamente nas perdas de cana e aumento de impurezas, principalmente minerais durante a colheita, e também interferem na operação da plantadora, onde a quantidade de terra sobre os toletes, em muitos casos, fica acima da recomendação, prejudicando a brotação.

De acordo com Gustavo Casoni da Rocha, engenheiro agrônomo, doutor em Ciência e professor do Curso de Aperfeiçoamento em Conservação de Solo Esalq/USP e Murilo Olyntho Machado, engenheiro agrônomo, consultor e também professor do Curso de Aperfeiçoamento em Conservação de Solo Esalq/USP, a evolução das operações mecanizadas de manejo, tratos culturais, colheita e transporte de cana, que ocorreram nos últimos 20 anos, tem forçado produtores e usinas a melhorarem a eficiência das operações de motomecanização.

“O layout empregado em um sistema de operação manual não é adequado para a realidade das operações realizadas mecanicamente. Este fato gerou altos custos e baixos índices de eficiência na produção agrícola, além de muitos problemas nos solos, como compactação e erosão. A erosão está diretamente ligada a diminuição da infiltração da água da chuva causada pela compactação e também à presença de estradas e carreadores mal projetados e com problemas de manutenção”, afirmam.

MANUTENÇÃO

Solo e relevo que permitiram sulcação reta com eliminação de terraços

Tipos de solo e o regime pluviométrico tem enorme influência sobre a sistematização, segundo especialistas. “As diferenças de texturas de solo, relevo e declividade influenciam nas estradas de acesso às áreas, na suscetibilidade do solo à erosão e definem as variedades de cana com diferentes épocas de manejo. O regime de chuvas tem impacto direto no sistema de conservação de solo, no planejamento do controle da enxurrada, definindo as técnicas e as dimensões das estruturas do sistema de conservação empregado”, explicam os especialistas da Esalq/USP.

Por isso, é importante ter a classificação dos solos para definir todas as operações e planejar as práticas de sistematização. “Hoje, algumas unidades possuem tabelas para formas de sulcação que levam em consideração o teor de argila dos solos, a época do ano e a declividade das áreas. Solos com maiores teores de argila são estáveis e, portanto, o plantio em períodos mais chuvosos apresentam menos problemas relacionados à erosão do que solos muito arenosos. Importante lembrar que todos os solos devem ter um preparo que elimine a compactação, trazendo uma melhor infiltração de água”, explica Conde.

Algumas características da sistematização da área devem ser avaliadas e executadas periodicamente ou sempre que necessário como: a retirada de tocos, pedras e a manutenção das estruturas de interceptação de águas pluviais. Ao final de cada ciclo da cana-de-açúcar, todas as técnicas devem ser avaliadas e ajustes poderão ser feitos em busca de melhores resultados. No entanto, segundo Conde, caso tenha sido feita uma adequação de talhões, um sistema conservacionista eficiente, carreadores e estradas em que as operações de plantio e colheita tenham apresentado boa capacidade operacional, a sistematização pode ter vida útil de mais de um ciclo de cana. “Caso contrário um novo planejamento com alteração do sistema conservacionista, posição de carreadores e de sulcação diferentes pode ser feito durante a instalação da lavoura, seja em uma área de expansão de cana ou mesmo em uma reforma de canavial”, afirma.

Ainda de acordo com ele, diversos fatores podem fazer a cultura de cana permanecer com a mesma sistematização como, terraceamento e/ou sulcação eficientes no controle de erosão; estande de canavial homogêneo; e controle de plantas daninhas eficiente. “Se este último fator estiver perfeito, pode-se decidir pela utilização de preparo conservacionista localizado ou não, o que trará uma significativa economia no preparo de solo.”

PLANEJAMENTO E TECNOLOGIAS AJUDAM

A sistematização adequada passa por um levantamento planialtimétrico preciso. Os professores da Esalq/USP destacam que o uso do Vant nesta operação tem se popularizado pela alta eficiência e baixo custo da operação, graças ao domínio do uso da tecnologia na atividade. “Tecnologias como sistemas de posicionamento global (GPS), piloto automático, imagens de drones/vants, satélites e softwares de geoprocessamento, dão condições de avaliar a situação das áreas de produção e adequá-las da melhor forma possível, buscando a conservação do solo e o seu melhor aproveitamento.”

Ainda de acordo com os professores, o planejamento e dimensionamento das estruturas de conservação de solo devem obedecer o relevo, clima, tipo de solo, época de implantação, tal como os manuais técnicos preconizam, sendo o mais recente lançado pelo IAC em 2016 (Boletim Técnico IAC no 216).

Já existem no mercado aparelhos de nível a laser que auxiliam a operação das máquinas de nivelamento, porém ainda são muito pouco usados pelo setor. “A tecnologia de agricultura de precisão mais utilizada ainda é o piloto automático em tratores que direcionam as faixas de preparo de solo, no caso de preparo canteirizado, e auxiliam diretamente a operação de plantio fazendo o paralelismo dos sulcos. Um bom paralelismo aumenta a utilização de área de cultivo em torno de 6%. Também é bastante utilizado em colhedoras para colher somente no sentido da linha e na operação de transbordamento para trafegarem nas entrelinhas e causarem menos pisoteio”, acrescenta Conde.

Ele indica que sulcação deve ser feita com menor número de sulcos e que os “bicos” devem ser evitados ao máximo. “Bicos” são sulcos com comprimento igual ou menor que 100 m. “Primeiramente a unidade agrícola deve emitir mapas para preparo de solo, onde estão alocadas linhas de energia que não podem ser alteradas, carreadores novos a serem construídos para melhorar tráfego e operação, pátios de transbordagem e terraços a serem retirados e/ou construídos. Antes do plantio, um novo mapa deve ser feito com as linhas de plantio, sentido de sulcação, carreadores principais, carreadores de serviço e pátios. Após o plantio, o mapa deverá ter todas as informações necessárias para a safra como sentido de tráfego [carregado e vazio] e rota de fuga [segurança em caso de incêndios].”

SISTEMATIZAÇÃO TEM SIDO BEM FEITA?

Conde explica que a sistematização é essencial para que as máquinas utilizadas nas operações realizem menos manobras

Com a evolução das leis ambientais, a sociedade civil e o setor sucroenergético entenderam que a erradicação da queima da palha da cana era necessária. Após esta evolução muita coisa mudou. Hoje temos a palha, o pisoteio, o corte mecânico, insetos, doenças e muitos outros aspectos técnicos tornando o sistema de manejo de antigamente ineficiente nos dias atuais.

Vieram as máquinas, computadores embarcados, sistemas de posicionamento global, acompanhamento em tempo real das atividades agrícolas, modelagem digital de terreno, imagens de satélite, sensores, drones etc. Com todas essas tecnologias o setor agora consegue entender como cada detalhe da lavoura impacta nos custos, seja um alinhamento de plantio sinuoso, um espaçamento, uma falha do plantio, o paralelismo das linhas de cana, o pisoteio nas linhas “mortas” ou mesmo uma manobra de máquina. Tudo isso gerou informação suficiente para o setor planejar e melhorar a eficiência em cada detalhe da produção, tornando a tomada de decisão muito mais precisa e embasada.

Apesar de tudo isso, os professores da Esalq/USP salientam que a criação de projetos de sistematização ainda é baseada, em grande parte, na experiência vivida pela equipe naquele determinado local, observando os históricos de falhas ou sucessos regionalizados sem utilizar planejamento técnico para elaboração de projetos. “Nós ainda planejamos como o setor fazia antigamente, de forma empírica, e executamos com tecnologia de ponta, o que não nos livra de problemas como erosões ou pouca eficiência operacional”, observam.

Conde afirma que se considerarmos que uma plantadora com trator representa em torno de 25 t de peso, uma colhedora pesa em torno de 10 t e um conjunto de transbordo tem em torno de 20 a 30 t de peso e, considerando que seus rodados passam várias vezes sobre a mesma entrelinha e que o pisoteio com o solo em condições normais de umidade reduz em 13% a produtividade para o próximo corte, a sistematização permite que desde o plantio as operações sejam realizadas de forma muito mais fácil, reduzindo consideravelmente o pisoteio.

“A quantidade e comprimento dos sulcos, o nivelamento da superfície e posicionamento de carreadores causam impacto direto na capacidade operacional dos equipamentos de plantio e colheita. Para cada sulco tem-se uma manobra com tempo médio de 1,5 minutos para a plantadora, colhedora e transbordo. Quanto menos sulcos com espaçamento uniforme uma área tiver, menos manobras os equipamentos farão. ”, conclui.

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