É possível ter os nossos colaboradores mais enamorados com nossas empresas, propósitos e missões?

Junho foi o mês dos namorados, então gostaria de trazer esse simbolismo para as organizações e as pessoas que fazem parte delas

Beatriz Resende

Temos falado muito, nos últimos anos, sobre a paixão no trabalho; o engajamento a uma causa; o conseguir encantar as pessoas, não só os clientes externos, mas especialmente os internos, o principal deles, que são os nossos colaboradores; trazer maior conexão das pessoas com a relação de trabalho e seus papéis profissionais; buscar o sentido de espiritualidade no trabalho, emergindo a civilidade, a cidadania, a educação e a aprendizagem que tanto precisamos ver acontecer nas nossas organizações em cadeia; entre outros tantos fatores que poderíamos aqui elencar para situar o que quero abordar.

Nesse universo empresarial tão sonhado nos dias atuais, estão faltando muitos elementos ainda para que consigamos “atrair” as pessoas para os nossos propósitos, para que elas enamorem-se mais pelos nossos objetivos, nossos discursos, nossos líderes e nossa missão como negócio.

É verdade também, e tenho falado isso em alguns artigos anteriores a esse, que uma fatia dos profissionais que está chegando ou já está em nossas empresas também não tem feito a sua parte como deveria. Quando falo de desengajamento, acho justo abordar os dois lados desse ciclo vicioso. Empresas não têm conseguindo ainda ter as pessoas conectadas, além da contrapartida do emprego, e estas também ficam buscando na relação de trabalho uma forma de achar “culpados” para suas justificativas perante o desafio da evolução, do crescimento, da maturidade e da não acomodação. Pessoas entram na relação de trabalho ainda no papel de vítimas, e não de protagonistas de sua história.

Embora eu tenha iniciado meu tema indicando que as empresas estão precisando cativar mais os profissionais que ali estão, permito-me fazer um aditamento de uma percepção constatada de que as empresas também estão desencantadas com as pessoas. Há casos e casos: vemos empresas pecando na sua forma de fazer gestão, criando um ciclo de insatisfação nas pessoas que são competentes, interessadas e que buscam se engajar num propósito, e que acabam saindo para buscar essa fonte em outro lugar. Ainda nesse cenário, essas mesmas empresas acabam por ter seus estoques cada vez mais inchados de pessoas que desistiram dela, mas ficam lá ocupando espaços, pois não têm coragem para buscar outras experiências e histórias, que cada uma delas poderia criar. Num outro cenário, temos empresas que têm boas políticas de gestão de pessoas, criam oportunidades e espaços, valorizam aqueles que fazem a diferença, mas ainda assim têm em seu quadro profissionais que não enxergam isto como um privilégio, e sim como mais do que uma obrigação da parte contratante. Existe um grande gap de equívoco nesse sentido. E ainda assim, como não se aderem às iniciativas ofertadas pelas empresas, o que requererão delas disposição e empenho para crescer e ser atrativas para a organização, preferem continuar a rezar o seu mantra de parte frágil, de vitimização. É mais fácil e sempre teremos muitos apoiadores ao nosso redor, levantando as mesmas bandeiras.

Aditamentos à parte, voltemos ao foco desse texto: “o bom namoro” entre empresas e seus colaboradores. Digo que as empresas perdem oportunidades de ter as pessoas junto delas. Na minha peregrinação profissional, vendo de tudo, entendo que existem alguns pontos básicos que são esperados por todos que buscam fazer parte de uma organização: respeito; valorização e reconhecimento; ambiente bom e boas relações; oportunidades; espaços de contribuição e o sentido de fazer parte de algo que valha à pena. É muito, pergunto às empresas e especialmente às lideranças que são pagas para isto, fazer a sua parte bem feita? Não só aquela que diz respeito a “tocar” o processo, mas especialmente a sua missão maior que é conduzir as equipes com foco nas entregas que o setor precisa fazer, ensinando e incentivando-lhes a ser não só um bom profissional executor, mas um bom colaborador, parceiro, um cidadão exemplar dentro da sua empresa, um multiplicador de boas intenções e atos éticos, um autodidata de posturas boas e intenções louváveis. Este é o papel que transformaria as empresas.

Também já prego, há tempo, que as pessoas se engajam pelo e para seus líderes. São eles que as empresas precisam colocar seu foco: escolhendo a dedo quem vai representá-las perante o seu bem maior; mantendo-os estimulados e valorizados; cobrando deles a sua melhor porção; trazendo elementos que os mantenham conectados com o mundo fora da porteira ou das portarias de seus castelos; dando-lhes também a sua melhor dose de suporte, não esquecendo que pessoas, e os líderes não são diferentes, precisam de estímulos contínuos, para que se lembrem dos seus papéis e não desistam ou os coloquem em segundo plano.

Sim, podemos ter profissionais mais enamorados pela nossa missão, fazendo desta a missão deles também. Basta que tenha sentido. Estamos numa era que as pessoas desistem de tudo muito rápido. Não podemos dar brecha para que elas desengatem ou descarrilhem-se dos nossos objetivos. Temos grande dose de responsabilidade nesse sentido.

Profissionais são, antes de tudo, pessoas que sentem, que querem, que sonham, que esperam, que precisam, que projetam. O jogo da atração mútua não tem descanso, assim como falamos dos relacionamentos afetivos.

Podemos então acrescentar naqueles longos róis que trazemos como competências de liderança, a de atrair e manter a energização das pessoas, conseguindo extrair naturalmente o melhor delas, sem força, sem ameaças, sem supremacia de cargos e posições, sem artifícios que nos blinda sempre diante de questionamentos, pedidos e súplicas, mas somente mostrando-lhe o quanto elas são importantes para a nossa gestão, para nosso time e para o nosso resultado. Isto tem que ser uma verdade absoluta para nós.

* Beatriz Resende é consultora, palestrante e conselheira de Carreiras da Dra. Empresa – Consultoria Empresarial (www.draempresa.com.br)