Gestão – Personalidade profissional

Podemos escolher e forjá-la ao longo do tempo com foco naquilo que queremos para nossa carreira

*Beatriz Resende

Preocupo-me, todos os dias, em todos esses anos que me dedico à área Humana e Organizacional, quando olho para os profissionais do que eu chamo de “grande mercado de trabalho”, estejam eles dentro ou fora das organizações. Os adultos profissionais ainda não tomaram ciência de que a caminhada em carreira depende exclusivamente deles, e os sucessos e insucessos, de suas escolhas. Não estou aqui falando somente das escolhas de onde estar, mas principalmente, como estar: que posição eu quero ter como profissional? Como quero ser visto? Onde e como quero fazer a diferença? Qual a minha personalidade profissional, aquela que se mantém e que me identifica, mesmo quando sou exposto, diariamente, às armadilhas dos contextos aos quais eu transito?

Outro dia, lendo um artigo que falava de uma nova conexão da pessoa com o trabalho, uma frase surgiu e me chamou a atenção: “o mundo do trabalho é caracterizado pelo sofrimento. Todo mundo reclama o dia inteiro”. O artigo enfocou a questão da conexão e ressignificação do profissional e do local de trabalho. Aqui vou pegar a onda para falar da desconexão da pessoa/profissional com o exercício da relação de trabalho e da relação com sua própria carreira.

As pessoas entram nas empresas, uma primeira vez ou mesmo num estágio adiantado, com visões preestabelecidas e, a meu ver, muitas vezes deturpadas sobre a relação do trabalho na vida delas. São paradigmas que um dia tiveram força, e até argumentos para se estabelecerem ao longo do tempo, mas que não podem ser perpetuados, pois muita coisa nessa relação tem mudado.

Se ainda os profissionais entrarem numa oportunidade profissional com uma postura defensiva, achando que são a parte mais frágil; que o mundo está contra eles; que eles precisam se resguardar o tempo todo para um dia exigir justiça; que devem estar atentos para não serem passados para trás; que todos os chefes existem para estar contra eles; que o que vem do outro lado é sempre injusto; que as pessoas sempre vão querer puxar o seu tapete; que o trabalho suga e a empresa exige demais; que sempre tem excesso de trabalho; que nunca ganha o suficiente e não é valorizado; que nunca vai ter a hombridade de sair de cena por não estar feliz; e por “querer os meus direitos”, entre outros tantos mimimis, eles nunca vão construir uma imagem real e límpida, que todos possam entender, de quais são suas intenções e propósitos como profissionais, e não apenas como empregados de uma empresa.

Da mesma forma que temos uma personalidade como pessoa, e dizem que ela é única e é o que nos distingue dos outros, também penso e acredito que devamos pensar em tê-la no nosso papel profissional. É isto que chamo aqui de Personalidade Profissional – ou seja, a construção do nosso perfil profissional, aquele que queremos que seja visto, valorizado, reconhecido como tal, compondo a nossa marca.

Pergunto: como queremos ser valorizados se temos nos comportado pelo senso comum? Reclamamos e nos sentimos “lesados” porque ficou institucionalizado que assim deveríamos nos posicionar diante da força chamada capital ou trabalho. Entramos num projeto que tem uma longa caminhada pela frente, e que precisa ser construído passo a passo, mas que logo no início dele já desistimos, muitas vezes, igualando de forma automática nossos possíveis insucessos e frustrações com as dos outros. Sem pensar naquilo que um dia possa ter passado pelas nossas mentes, como um lampejo de esperança, automotivação, vontade e curiosidade, quando em algum bom momento pensamos em nós como profissionais. Todos um dia fomos crianças e sonhamos alto: queríamos ser tudo, como super-homens ou mulheres maravilhas, e apostamos. Mas logo achamos que perdemos, sem ao menos insistir ou tentar. Ou mesmo mudar a rota caso aquela que escolhemos não tenha se mostrado a melhor. Temos chance e capacidade para isso a vida toda, mas desistimos ainda novos e preferimos repetir histórias e frustrações conhecidas porque é mais cômodo, ajeitando confortavelmente a nossa postura de vítima, aquela que mais gostamos de atuar. Dá ibope, amealha seguidores e segura as nossas eternas justificativas, preguiças e descréditos, muitas vezes herdados dos nossos núcleos, assim como herdamos muitas outras coisas. Aqui não seria diferente.

Já vi situações onde somos fomentados, desde a mais nossa tenra criação, a ter um olhar deturpado sobre as nossas oportunidades de trabalho. Infelizmente. Muitas pessoas, nos papéis de pais, cônjuges, amigos, colegas e mesmo gestores, em suas visões equivocadas da vida, contribuem, mesmo sem saber, por ceifar destinos que poderiam ser diferentes. Repito, pessoas perdem oportunidades por posturas equivocadas e escolhas infelizes.

Portanto, avalie o que você quer ser nesse papel e não o que os outros têm sido. Talvez eles não tivessem nenhuma opção. Nunca ninguém disse isto a eles. Vocês as têm. O mundo tem sinalizado isso, o tempo todo, mesmo que com palavras diferentes destas que eu tenha dito nesse texto.

Não seja como os outros: seja você, em suas escolhas. Não olhe para o mundo e para a relação de trabalho e para sua carreira com a visão de prateleira. O mundo não está mais para nada que seja visto como modelo de prateleira. O mundo está ávido por olhares, visões e modelos mentais diferentes e construtivos. Tamanhos únicos não cabem para todos. As manchetes ruins ainda dão ibope. Arrastam multidões. Mas os resultados, o sucesso, a visibilidade, a tal “sorte”, todos vêm de aspectos positivos. Ainda acho que a boa vence a má intenção, ou a visão e a ação corrompidas. Vale pensar nisso!

* Beatriz Resende é consultora, palestrante e conselheira de Carreiras da Dra. Empresa – Consultoria Empresarial (www.draempresa.com.br).