Mesmo com crise, usinas e produtores não podem deixar de investir no canavial

Por Natália Cherubin

Mesmo com todas as dificuldades que se apresentam para o setor sucroenergético ao longo de 2020, especialistas acreditam que usinas ou produtores de cana, mesmo que precisem reaver seus custos, não podem deixar de fazer o arroz com feijão bem feito, ou seja, investir no ativo mais importante: o canavial.

Com um cenário onde o preço do petróleo caiu tanto que chegou a ficar negativo e com a redução drástica do consumo de etanol, diante da paralização das atividades por conta da pandemia do Coronavírus, a safra 2020/21 poderá criar dois grandes grupos, de acordo com Haroldo Torres, economista e Gestor de Projetos do Pecege, em webinar realizado na noite de segunda-feira, dia 20.

Um grupo é formado por usinas e produtores que tem caixa da safra passada, que foi relativamente boa. Estes estarão capitalizados e vão passar por essa fase. Do outro lado usinas e fornecedores que não tem essa capacidade de financiamento e irão precisar de capital de giro.

“Antes mesmo de olhar custo, tem usina ou produtor que não sabe nem o que vai fazer com a safra. Tem usinas que estão discutindo se vão carregar o máximo possível de estoque de etanol e outras que estão pensando em estocar o ativo biológico, ou seja, bisar cana. Esse é o cenário que estamos criando.”

Diante deste panorama, a safra 2020/21 vai ter sua receita bastante prejudicada. É neste momento que surge uma máxima: cortar custos. O orçamento acaba ditando a companhia, o que é visto com grande preocupação pelo economista do Pecege.

Haroldo Torres: ‘Nós não podemos esquecer que o setor sucroenergético é um setor onde a maior parte do custo é fixo, se a maior parte é fixo, eu preciso ter produtividade.”

“Eu tenho preocupação sobre o corte de custos. Porque um corte de custos por si só é um erro. A gente tem que cortar e identificar primeiro as nossas ineficiências porque é daí começa nosso corte de custos. Nós não podemos esquecer que o setor sucroenergético é um setor onde a maior parte do custo é fixo, se a maior parte é fixo, eu preciso ter produtividade e o maior erro, que já foi feito pelo segmento, é cortar investimentos no ativo biológico, ou seja, cortar investimentos na cana”, disse Torres.

Para o economista do Pecege se o produtor de cana ou usina compromete a produtividade nesse ciclo, acaba elevando seu custo de produção no próximo ano, criando um ciclo vicioso do qual a empresa não consegue sair, ou seja, baixo nível de produtividade e custo alto.

Diagnósticos de ineficiências e otimização de recursos

Weber Valério, consultor da Agroanalítica, acredita que o corte de custos vai caber muito a equipe técnica, mas os gestores, diretores e gerentes das unidades vão ter que dar sua colaboração para otimizar recursos.

“A palavra-chave dessa temporada é otimizar recursos. Recursos que nós temos hoje e que certamente vão sobrar do orçamento que vai ser revisto. É aí que está a grande ginástica que teremos de fazer. Tenho visto que algumas usinas e produtores muitas vezes tomam a decisão de implantar tecnologias para alavancar os três dígitos, mas não se preocupam em fazer o básico, como melhorar as operações de aplicação de herbicidas, por exemplo, onde ainda há perdas de até 30%”, afirmou.

O economista do Pecege diz que o segredo nesse momento é passar a identificar onde é que estão as ineficiências e os gargalos da produção e atacar justamente nisso, sem cortar o que vai impactar.

“É importante lembrar que neste setor a área agrícola responde diretamente ao manejo, responde diretamente ao investimento que se está fazendo. Então é importante que não se faça redução dos investimentos, mesmo que se tenha uma geração de caixa muito menor, com vistas a comprometer os investimentos nos ativos biológicos, sob penalização e deteorização dos canaviais e redução dos ganhos na próxima safra”, alerta Torres.

Valério destacou que o setor ainda tem muitas perdas no CTT, no plantio e nos tratos de cana planta e soca, como é o caso da aplicação de defensivos agrícolas e afirmou que os diagnósticos das ineficiências das operações precisam ser feitos por pessoas capacitadas.

“Temos uma nova safra de gestores que está chegando com a maior vontade no front, mas as vezes está pouco preparada. A capacitação dessas pessoas para que elas possam identificar as oportunidades e alavancar as melhores tomadas de decisões e administrar um orçamento enxuto é essencial.”

Ações da Raízen

Hamilton Jordão, gerente Agronômico Corporativo da Raízen disse que o momento pede diagnóstico e busca pela eficiência. “Só toma a decisão quem conhece o problema. Essa é a safra para a gente olhar para tudo que a gente tem e todo nosso canavial, entender nossos problemas e fazer nossos diagnósticos. O diagnóstico mais a eficiência operacional serão os grandes pilares desta temporada”, afirmou.

Ele ainda disse que com a pressão no custo dos insumos e com a queda de receita não há como não pensar em priorizar investimentos.

“A priorização será automática ao ponto em soubermos onde vamos gastar mais energia e onde teremos mais retorno. Toda a atenção que temos que dar ao controle de ervas daninhas e pragas, principalmente as do solo, vamos continuar dando, mas agora, buscando a máxima eficiência, porque não teremos recursos para cobrir ineficiências. O timing das operações é muito importante. Chegar na hora certa, para trabalharmos com moléculas mais baratas e eficientes”, disse.

Ele ainda destacou que a Raízen está muito atenta à gestão de resíduos como torta de filtro e vinhaça. “Esse é o ano de buscar a melhor gestão desses recursos possível, porque vai nos ajudar a tirar a pressão do insumo fertilizante.”

Outro item que este ano será olhado com maior atenção é a rotação da cana de açúcar em consórcio com grãos, como a soja. “Esse ano o setor de grãos está avançando e sabemos que o consórcio com grãos ajuda na redução de custos e na produtividade dos canaviais.”

Outro ponto que a Raízen tem atenção é o plantio de cana. “Não podemos, nesse momento, abrir mão do plantio e precisamos fazer ele da melhor forma possível. Esse é um ano em que não podemos correr riscos. Além disso, temos que ter o melhor manejo de colheita. O acerto vai garantir nossa sustentação nos próximos anos. Estamos gastando bastante a nossa energia nisso para ter uma safra segura, prudente, enxuta, mas que garante nosso negócio para os próximos anos”, concluiu Jordão.

De acordo com os especialistas do setor, o setor deve manter seus investimentos na produtividade dos canaviais

Cana de qualidade será sustento do produtor

Evandro Amaral, produtor de cana na região de Piracicaba, SP, disse que apesar de todas as dificuldades que o cenário atual apresenta, é preciso continuar investindo em tecnologias para entregar uma cana de qualidade à indústria. Ele contou que conseguirá continuar com seu plano de safra graças aos ganhos obtidos na safra anterior, que garantiu um bom fechamento de ATR.

“Viemos de alguns anos com baixa expectativa de preço e para 2020 tínhamos uma expectativa de boa produção. O clima ajudou bem. O que aconteceu para o produtor de cana foi a alta que tivemos nos preços de janeiro a março. Tivemos uma expectativa de fechamento de ATR maior do que esperávamos, de quase R$ 0,70. O pagamento de qualidade que recebemos agora, pelo acordo com Consecana, que recebemos no dia 15 de abril, fez com que entrássemos na safra atual com um recurso maior do que esperávamos”, revelou.

Com isso, a estratégia do produtor foi antecipar suas compras em janeiro, fevereiro e março, antes da alta do dólar. “Antecipei também meu plantio de cana para aproveitar a oportunidade de clima. Antecipei uma semana antes a minha safra também, ao ver as condições climáticas favoráveis.”

Amaral afirmou que o produtor de cana está calejado de tanto passar por crises de preços e que desenvolveu uma capacidade de resiliência. “A gente quer investir e produzir. O erro do passado serve para o momento e para o futuro. Deixar de investir em insumos, herbicidas, adubos é um erro terrível. Sabemos que quem faz isso vai comprometer as outras safras. Eu, como produtor tive muitas experiências negativas com esse medo de investimento ou com falta de capacidade de investimento e hoje entendo que temos que racionalizar os recursos”, disse,

Na visão dele, os bancos estão muito interessados em financiar a agricultura com a queda da taxa Selic para 3%. “Surgiu uma oportunidade grande para os bancos colocarem dinheiro na agricultura. O credito rural está a entre 6 e 7% e isso é mais de 100% da Selic. Além de ser bom para o banco, os produtores são bons pagadores também. Acho que não teremos dificuldades pra retirar recursos para financiar”, observou.

Durante sua fala no Webinar, Amaral aconselhou que os produtores de cana mantenham seus investimentos para manter a qualidade da cana, que é remunerada.

“Não adianta reduzir custos e depois vender a cana com ATR baixo e ter remuneração baixa. Não vejo outra saída para esse momento. Os preços estarão ruins, por isso é preciso extrair o máximo possível do nosso produto que você só consegue através de produtividade e ATR. A cooperativas tem recurso. Antecipem as compras, tentem negociar preços. Não pode esquecer que o plantio de cana é para seus anos. se deixar de investir no plantio, tratos culturais, soqueira de cana, você errou de novo”, afirmou.

Coplacana mantem apoio aos fornecedores

Arnaldo Bortolotto, presidente da Coplacana, afirmou que a cooperativa vem acompanhando de perto a situação dos produtores e que continua pregando o uso de tecnologias e vem dando recomendações no cuidado com os custos.

“Se o produtor não tiver caixa, não atravessa a crise. Ele precisa ter cuidado com o endividamento. Na hora de olhar o caixa é preciso saber o que se pode investir para não se comprometer com financiamentos. Na parte técnica orientamos que se o produtor não consegue fazer tratos em 100% da área, que diminua, mas que faça bem feito na onde fizer. Produtividade e longevidade é imprescindível neste momento”, disse.

Bortolotto ainda afirmou que acredita que o segmento irá superar mais essa crise, mas que a boa gestão financeira será fundamental para que o produtor possa sobreviver. “Com tecnologias e cuidados, com certeza esse produtor vai suportar esses momentos. O setor está trabalhando muito para que tenhamos medidas governamentais. Acredito que teremos medidas, mas o produtor que não tem muito alternativa, tem que aumentar a produtividade. Um arroz com feijão bem feito você supera toda a crise”, concluiu.

Segredo: fazer feijão com arroz

Apesar de todo o setor estar à espera do governo com suas medidas, ou aumento da Cide, isenção do pis/cofins ou linhas de financiamento para warrantagem, a grande saída primeiro é fazer um planejamento dentro de casa muito forte.

“Analisar as ineficiências e onde há gordura para cortar e não cortar aquilo que vai comprometer a produtividade ou vai causar a deteorização dos canaviais.  Mais do que ficar esperando o governo, é importante que a gente tome internamente medidas para identificar as ineficiências. Vários agentes do setor, inclusive, estão procurando dar as mãos para encontrar soluções. A saída da crise é fazer o feijão com arroz. O segredo do sucesso é não inventar. É fazer bem o bê-á-bá”, concluiu Torres.